quinta-feira, 21 de junho de 2007

No aniversário do bruxo do Cosme Velho

Foto de Marc Ferrez

Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Filho do operário Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo, pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência. Foi criado no morro do Livramento e ajudou missa na igreja da Lampadosa. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 1855, com 16 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, número datado de 12 de janeiro de 1855. No ano seguinte, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor. Em 1859, era revisor e colaborador no Correio Mercantil e, em 60, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente também para a revista O Espelho, onde estreou como crítico teatral, A Semana Ilustrada, de 16 de dezembro de 1860 até, pelo menos, 4 de julho de 1875, Jornal das Famílias, no qual publicou de preferência contos.

O primeiro volume de Machado de Assis foi impresso, em 1861, na tipografia de Paula Brito, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, mas o nome de Machado aparecia aí como tradutor. Em 1862, era censor teatral, cargo não remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou também a colaborar em O Futuro, órgão dirigido por Faustino Xavier de Novais, irmão de sua futura esposa. Seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, saiu em 1864. Em 1867, foi nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. Em agosto de 69, morreu Faustino Xavier de Novais e, menos de três meses depois (12 de novembro de 1869), Machado de Assis se casou com a irmã do amigo, Carolina Augusta Xavier de Novais. Foi companheira perfeita durante 35 anos, tendo-lhe revelado os clássicos portugueses e vários autores de língua inglesa. O primeiro romance de Machado, Ressurreição, saiu em 1872. Pouco depois, o escritor foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de burocrata que lhe seria até o fim o meio principal de sobrevivência. Em 1874, começou a publicar, em O Globo de então (jornal de Quintino Bocaiúva), em folhetins, o romance A mão e a luva. Intensificou a colaboração em jornais e revistas, como O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira (ainda na fase Midosi), escrevendo crônicas, contos, poesia, romances, que iam saindo em folhetins e depois eram publicados em livros. Uma de suas peças, Tu, só tu, puro amor, foi levada à cena no Imperial Teatro Dom Pedro II (junho de 1880), por ocasião das festas organizadas pelo Real Gabinete Português de Leitura para comemorar o tricentenário de Camões, e para essa celebração especialmente escrita. De 1881 a 1897, publicou na Gazeta de Notícias as suas melhores crônicas. Em 1881, o poeta Pedro Luís Pereira de Sousa assumiu o cargo de ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e convidou Machado de Assis para seu oficial de gabinete (ele já estivera no posto, antes, no gabinete de Manuel Buarque de Macedo). Nesse ano de 1881 saiu também o livro que daria uma nova direção à carreira literária de Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás Cubas, que ele publicara em folhetins na Revista Brasileira de 15 de março de 1879 a 15 de dezembro de 1880. Revelou-se também extraordinário contista em Papéis avulsos (1882) e nas várias coletâneas de contos que se seguiram. Em 1889, foi promovido a diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia.

Grande amigo de José Veríssimo, continuou colaborando na Revista Brasileira também na fase dirigida pelo escritor paraense. Do grupo de intelectuais que se reunia na Redação da Revista, e principalmente de Lúcio de Mendonça, partiu a idéia da criação da Academia Brasileira de Letras, projeto que Machado de Assis apoiou desde o início. Comparecia às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1879, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, à qual ele se devotou até o fim da vida.

A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários. Na poesia, inicia com o romantismo de Crisálidas (1864) e Falenas (1870), passando pelo Indianismo em Americanas (1875), e o parnasianismo em Ocidentais (1897-1880). Paralelamente, apareciam as coletâneas de Contos fluminenses (1870) e Histórias da meia-noite (1873); os romances Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico. A partir daí, Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas, que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa.

A obra de Machado de Assis foi, em vida do Autor, editada pela Livraria Garnier, desde 1869; em 1936, W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, publicou as Obras completas, em 31 volumes. Raimundo Magalhães Júnior organizou e publicou, pela Civilização Brasileira, os seguintes volumes de Machado de Assis: Contos e crônicas (1958); Contos esparsos (1966); Contos esquecidos (1966); Contos recolhidos (1966); Contos avulsos (1966); Contos sem data (1966); Crônicas de Lélio (1966); Diálogos e reflexões de um relojoeiro (1966). Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura e encabeçada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, organizou e publicou, também pela Civilização Brasileira, as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes, reunindo contos, romances e poesias desse escritor máximo da literatura brasileira.

BIBLIOGRAFIA:

Comédia
Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Poesia
Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.

Romance
Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.

Conto:
Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.

Teatro
Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Algumas obras póstumas
Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.

Antologias
Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998


Robô terráqueo procura formas de vida em Marte

O veículo explorador fará as perfurações mais profundas no subsolo marciano, a 2 metros da superfície. A essa profundidade, pode haver alguma vida protegida da radiação cósmica

Como será a missão que buscará formas (microscópicas) de vida enterradas em Marte

O pesquisador americano jeffrey Bada planeja se redimir de ter um dia acabado com a alegria dos entusiastas da vida em Marte. Um estudo coordenado por ele em 1998 mostrou que moléculas orgânicas presentes em um meteorito marciano, encontrado na Antártica em 1984, tinham ido parar na rocha após ela chegar à Terra. Hoje, à frente do Centro de Astrobiologia da Nasa, nos Estados Unidos, Bada comanda o desenvolvimento do mais potente dispositivo de busca de vida extraterrestre já construído. O equipamento será lançado rumo a Marte a bordo da missão ExoMars, programada pela Agência Espacial Européia para 2013. A missão tem como objetivo responder à pergunta que estimula a imaginação da humanidade desde que o astrônomo americano Percival Lowell garantiu ter avistado, no fim do século XIX, uma rede de canais em Marte que seria obra de uma civilização.

A missão ExoMars esquadrinhará Marte em busca de vizinhos como nunca nenhuma missão espacial fez. Ninguém espera encontrar homenzinhos verdes lá, mas pode haver organismos microscópicos. O objetivo é despachar para o planeta um veículo explorador com um laboratório de análises químicas, o Urey. Ele foi concebido para procurar moléculas que indicam a presença de vida, os aminoácidos. Esses compostos de carbono formam as proteínas, que constroem os tecidos dos seres vivos na Terra. “A capacidade do Urey para detectar moléculas orgânicas será 1 milhão de vezes maior que a dos equipamentos já enviados a Marte”, diz Bada.

Além de identificar os aminoácidos, o aparelho também pode analisá-los para verificar se estão associados a alguma forma de vida. “Já foram encontrados aminoácidos em meteoros, mas isso não comprova que há vida fora da Terra”, diz Eduardo Gorab, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Eles podem ter sido produzidos por reações químicas ao acaso entre gases encontrados no espaço.”

Para tirar essa dúvida, o Urey usará uma técnica que explora as propriedades físicas dos aminoácidos. Quando pesquisadores, em laboratório, submetem um grupo de aminoácidos que compõe os seres vivos a um feixe de luz, todas as moléculas desviam o raio luminoso para a esquerda. Se o grupo de aminoácidos tiver sido gerado por reações químicas, no entanto, cerca de 50% das moléculas desviarão a luz para a direita e 50% para a esquerda, numa distribuição ao acaso. Os equipamentos do Urey farão essa análise em solo marciano. “Se um grupo de aminoácidos desviar toda a luz para a direita, isso significará a descoberta de um tipo completamente único de vida”, diz Bada. Se os aminoácidos desviarem a luz para a esquerda, como na Terra, pode significar que a vida em Marte tem alguma relação com a terráquea. Ou que ela se desenvolveu, por coincidência, de forma parecida com a nossa.

A ExoMars procurará por esses sinais de vida em uma fronteira inexplorada por missões espaciais: o subsolo marciano. O veículo que leva o Urey terá uma broca para perfurar o solo e retirar amostras a até 2 metros de profundidade. E é justamente no subterrâneo de Marte que os pesquisadores esperam encontrar algum tipo de vida. Afinal, a superfície marciana não é o melhor lugar para um ser vivo se desenvolver. Ela é constantemente atingida por radiação ultravioleta em níveis letais para a vida. A temperatura média é de 60 graus negativos e não há sinais de água em estado líquido. Já o subsolo marciano parece reunir condições mais amigáveis: temperaturas amenas, proteção contra os raios ultravioleta e, quem sabe, água líquida.

Imagens tiradas com sete anos de intervalo pela sonda Mars Global Surveyor mostram o aparecimento de rastros de água na superfície do planeta. “Esse ‘vazamento’ sugere que em alguma profundidade do subsolo de Marte há água líquida”, diz o astrobiólogo David Grinspoon. “Essas descobertas recentes reforçam a possibilidade de haver vida em Marte ou de pelo menos encontrarmos sinais de algum tipo de vida extinta.” Os pesquisadores não descartam a hipótese de que o planeta já tenha abrigado vida. Marte parece ter sido um lugar bem mais agradável há 4 bilhões de anos. Então, o impacto de um bombardeio de meteoros teria jogado para o espaço os gases que formavam a atmosfera marciana, hoje muito fina. Com isso, o planeta ficou frio e a água líquida que um dia existiu teria congelado.

Apesar da sofisticação da busca que será feita pela ExoMars, é possível que os equipamentos não enxerguem um tipo de vida que não tenha por base compostos de carbono – a única forma de vida que conhecemos. “Se for diferente, não se sabe se conseguiremos detectá-la”, diz o astrônomo Roberto Costa, da Universidade de São Paulo. Essa possibilidade desperta outro tipo de questão entre os astrônomos: o que é a vida, afinal? Por enquanto, a melhor estratégia para descobrir é continuar investigando outros planetas.

A dificuldade de buscar vida extraterrestre é reconhecer sinais dela. Ninguém espera encontrar homenzinhos verdes em Marte, e sim formas mais simples. Pode ser algo como bactérias.

O robô explorador estará equipado com o Urey, um dispositivo que procurará moléculas associadas à vida na Terra, os aminoácidos. O Urey pode indicar se as moléculas encontradas têm ligação com algum ser vivo ou se foram formadas apenas por reações químicas ao acaso.
Marcela Buscato
Época, http://revistaepoca.globo.com/ nº 474 (18-06-2007)

Descoberta a primeira vítima de arma de fogo no Novo Mundo

Esta pode ser a primeira vítima confirmada da conquista espanhola.
A equipe chefiada pelo arqueólogo peruano Guillermo Cock, bolsista da National Geographic, descobriu o esqueleto da primeira vítima de arma de fogo registrada no Novo Mundo em um cemitério inca nos arredores de Lima, no Peru. Acredita-se que o corpo seja a primeira vítima da conquista espanhola comprovada por análise forense, uma entre prováveis 72 vítimas de um levante contra os conquistadores. Cock, que trabalhou mais de 20 anos para desvendar os mistérios desses cemitérios índios, cavou uma trincheira de teste em uma encosta de colina no subúrbio de Puruchuco a pedida da prefeitura de Lima, que planejava fazer uma rua ali. Na trincheira de 6 X 24 metros, Cock e sua colega arqueóloga Elena Goycochea rapidamente depararam com um conjunto de túmulos e concluíram que o local tinha sido um cemitério.

Desde o início das escavações, em 2004, a equipe desenterrou cerca de 500 esqueletos que remontam a cerca de 500 anos, até a civilização inca. Conhecidos como os romanos do Novo Mundo, os incas conquistaram toda a região andina até que seu reinado terminou em 1532 com a invasão espanhola.

Cock descobriu que 72 dos corpos da encosta tinham sido enterrados sem a tradicional reverência à morte dos incas, que compreende por exemplo o uso de tecidos para enrolar o corpo em posição fetal, de frente para o leste. "Estes corpos tinham sido enterrados de uma maneira estranha", disse Cock. "Não estavam virados para a posição certa, foram amarrados com pressa em tecido simples, não tinham oferendas e estavam enterrados a pouca profundidade. Alguns dos corpos também apresentavam sinais de violência terrível. Tinham sido atingidos com instrumentos pontudos, dilacerados, empalados - ferimentos que pareciam ter sido causados por armas de ferro - e vários tinham ferimentos no rosto e na cabeça que pareciam ter sido causados por armas de fogo."

Um dos crânios apresentava ferimento de entrada e de saída e, perto dele, foi encontrado um tampão de osso que pode ter sido deslocado da cabeça. No início, Cock achou que os buracos no crânio fossem modernos - resultantes de tiros desferidos por vândalos. Mas o tampão de osso, recuperado intacto, refletia impacto com força bem menor do que a de qualquer arma de fogo moderna e trazia uma marca côncava que claramente sugeria o uso de bala de mosquete.

Com base em indícios encontrados no local da escavação, Cock convenceu-se de que tinha encontrado uma vítima de arma de fogo da época dos incas. O antropólogo físico John Verano, da Universidade de Tulane, concordou depois de realizar observações em campo; Melissa Murphy, da Faculdade Bryn Mawr, bioarqueóloga e integrante da equipe, sugeriu que buscassem indícios definitivos.

Para determinar de maneira conclusiva se o ferimento foi ou não causado por arma de fogo, Cock e sua equipe decidiram usar tecnologia para examinar o crânio em busca de vestígios de metal na beirada do ferimento. Cock, Goycochea e Murphy levaram o crânio e outros ossos para o renomado centro de ressonância magnética Resomasa, em Lima. Não apareceu nenhum resquício de metal.

Sem desanimar, Cock recorreu ao cientista forense Tim Palmbach, na Universidade de New Haven (EUA), que convocou o Instituto de Ciência Forense do Connecticut Henry C. Lee, da universidade, que conta com uma das instalações mais avançadas do setor. "Tentamos eliminar todos os tipos de causas que pudessem ter provocado o buraco - uma pedra de estilingue, lança, marreta", disse Al Harper, diretor-executivo do instituto. "Queríamos saber o que poderia ter causado aquele padrão de ferimento."

Harper e Palmbach então resolveram examinar o crânio com um microscópio de varredura muito potente. "Todos achamos que teríamos uma chance em um milhão de encontrar algum resíduo de metal em um crânio tão antigo quanto aquele, mas valia a pena tentar", disse Harper.
Mas encontraram. As beiradas dos buracos no crânio e todo o tampão de osso estavam impregnados de fragmentos de ferro, metal às vezes usados na confecção de balas de mosquete espanhol. Parece que uma bala de mosquete com menos de 2,5 centímetros de diâmetro entrou pela parte de trás do crânio e atravessou a cabeça, deixando fragmentos de ferro incrustados no osso, que lá permaneceram durante 500 anos.

"Isto comprova, de maneira conclusiva, que a pessoa foi morta por uma arma de fogo, e que ele é a primeira vítima de tiro a ser identificada na Américas", afirmou Cock. Desde a descoberta da primeira vítima de arma de fogo, parece que duas outras foram identificadas.

Acredita-se que os ferimentos no crânio e nos dois outros corpos tenham sido causados por armas consistentes com as usadas pelos soldados espanhóis da época. As armas usadas para nesses casos foram algumas das primeiras armas de fogo do mundo - a tecnologia militar mais avançada do século 16, de acordo com o historiador militar John Guilmartin, da Academia Militar de West Point (EUA). "Os espanhóis sabiam usá-las", disse.

Cock e sua equipe acreditam que as mortes tenham ocorrido no verão de 1536, durante um levante inca contra os conquistadores espanhóis liderados por Francisco Pizarro, conhecido como o cerco de Lima. Entre os 72 corpos enterrados de maneira apressada, havia várias mulheres e adolescentes. Cock disse que estes não seriam soldados, mas sim ajudantes dos guerreiros, que cozinhavam, carregavam os suprimentos e cuidavam dos feridos.

O mais provável é que os corpos tenham sido enterrados de maneira apressada porque os incas, no meio do levante, não tinham tempo nem recursos para enterrar os mortos da maneira apropriada e tradicional. As covas rasas e os corpos dispostos de maneira caótica, mal acondicionados e sem oferendas, são testemunho do fato de que os incas estavam atarantados demais para terem condições de fazer rituais adequados para o enterro das vítimas.

O cemitério fica a pouco menos de um quilômetro de milhares de múmias incas descobertas em Puruchuco por Cock a partir de 1999. Essa descoberta foi anunciada em abril de 2002 e na reportagem de capa de maio de 2002 da revista National Geographic. Os arqueólogos descobriram o total de quase 1,8 mil múmias enroladas em tecidos e dezenas de milhares de artefatos em Puruchuco.

As escavações em Puruchuco foram financiadas pela National Geographic Society e pela prefeitura de Lima, com licença fornecida pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru. A pesquisa de Murphy é financiada pela National Science Foundation.

As novas descobertas em Puruchuco serão apresentadas em "The Great Inca Rebellion" [a grande rebelião inca], um novo especial da NOVA/National Geographic, que estréia na terça-feira, 26 de junho de 2007, no canal público PBS, dos EUA.
 
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