segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Franz Liszt (1811 - 1886)

Retrato de Franz Liszt fotografado por Felix Nadar. Considerada a última fotografia de Liszt.

Ferenc (ou Franz) Liszt nasceu em Raiding, Hungria, na noite de 21 para 22 de outubro de 1811, ano marcado pela passagem de um cometa...Seu pai, Adam Liszt, era descendente de antiga e nobre família húngara, embora sem fortuna. Apesar de saber tocar piano, violino e flauta, sobrevivia como administrador da propriedade rural do Príncipe Miklós Esterházy, na qual, durante o século XVIII trabalhara Joseph Haydn.

Sua mãe era uma austríaca, Anna Lager, cantora pôr profissão. Um ano após o casamento, nascia Franz, primeiro e único filho do casal; louro e de grandes olhos azuis, uma bela criança.

Muito sensível, já aos seis anos era capaz de reproduzir com perfeição os temas que ouvia seu pai tocar ao piano. Tal proeza levou Adam Liszt a fazer do filho um pianista, encarregando-se, ele próprio de dar-lhe aulas. O aprendizado do pequeno Franz foi supreendente: aos oito anos começou a compor e aos nove se apresentou pela primeira vez, em uma cidade vizinha, executando um concerto de Ries. Após este sucesso, surgiram novas oportunidades em outras cidades. Franz Liszt iniciara sua carreira de pianista.

Encantados com a criança prodígio, nobres húngaros lhe ofereceram uma bolsa de estudos, que permitiu a Liszt fazer estudos sérios e completos. A família mudou-se para Viena, onde o menino pôde se aperfeiçoar em piano com Czerny, e em composição com Salieri.

Em 1822 apresentou-se pela primeira vez para o público vienense e levou a platéia ao delírio com seu virtuosismo. Sucesso absoluto de público e de crítica: Liszt, aos doze anos, já era um ídolo.

Em 1823 partiu para uma longa série de concertos pela Alemanha e França. Em 1824 estreou em Paris, obtendo, como sempre, sucesso estrondoso. Recusada a sua entrada no Conservatório de Paris, pôr ser estrangeiro, recebeu aulas particulares de composição dos mestres Anton Reicha e Ferdinando Paer. O famoso construtor de pianos Sebastien Érard contratou-o para divulgar seus novos modelos.

As viagens prosseguiam quase sempre sem interrupção, sendo sempre aclamado pelo público. Exausto, sofreu em 1827 uma depressão nervosa e passou pôr uma crise de misticismo, que o levaria, anos mais tarde, a entrar para a Ordem dos Franciscanos, como abade. Com a morte de seu pai, neste mesmo ano, e a necessidade de assumir os encargos de chefe de família, trouxeram-no de volta à realidade, passando então a lecionar música para as damas da alta aristocracia parisiense. Apaixona-se, aos dezessete anos, pôr uma de suas alunas,Caroline de Saint-Cricq, jovem como ele. Foi seu único insucesso amoroso. Apesar de se amarem, o pai da garota, ministro do Rei Carlos X, tinha projetos de casamento muito mas ambiciosos para a filha.

Melancólico e deprimido, o compositor adoeceu e entrou em nova crise de misticismo, ao mesmo tempo que se voltou freneticamente para a leitura de Dante, Voltaire, Vitor Hugo e outros clássicos.

Afastando-se do misticismo, o músico passou a se envolver na agitação política que ocorre na França, participando de reuniões intelectuais, interessando-se pôr uma sociedade igualitária, na qual o músico e o artista em geral teriam posição de destaque. Impelido pôr seus ideais, Liszt fundou, em 1834, juntamente com Chopin e Berlioz, a Gazeta Musical de Paris, órgão de imprensa destinado a defender os direitos do artista e a esclarecer a opinião pública sobre a função da arte na sociedade.

Em 1833 conheceu a condessa Marie d’Agould, que exerceria papel importante em sua vida. Ela, já casada e com três filhos, fizera um casamento de conveniência. Vinte e oito anos - seis anos mais velha que ele - culta, bela, independente e rica, tal era Marie quando Liszt a conheceu. Ele, virtuose consagrado, também culto, uma personalidade atraente. Em 1835, Marie abandonou o marido e os dois amantes foram viver na Suíça.

Afastado temporariamente da carreira de concertista, vivendo tranqüilamente na Suíça ao lado de Marie, Liszt dedicou-se inteiramente à composição. Neste período dedicou-se também à divulgação de obras de outros compositores. Aqui reside um dos grandes méritos de Liszt :admirar o gênio no outro e trabalhar pelo seu reconhecimento pôr parte do público. Trabalhou no Conservatório de Genebra. Seus alunos compunham-se de 28 mulheres e 5 homens.

De sua união com Marie nasceram os três filhos de Liszt: Blandine, Cosima - que se casaria com o regente Von Bülow, abandonando-o, depois, para viver com Wagner - e Daniel. Logo após o nascimento do último filho, as relações entre o casal começaram a se deteriorar e o rompimento tornou-se inevitável, efetivando-se no final de 1839. Marie regressou com os filhos para Paris e Liszt voltou a vida errante de concertista. Nos oito anos seguintes, deu recitais e concertos pôr toda a Europa. Estava no auge da fama, sendo considerado o mais brilhante virtuose do momento. Entrava triunfalmente em cada cidade pôr onde passou, sentado em sua carruagem atrelada a seis cavalos brancos. Era o convidado de honra da alta aristocracia parisiense, que o solicitava como recitalista e professor de piano. Desta forma colocou o músico numa posição de destaque dentro da hierarquia social - uma de suas metas como homem e artista.

Célebre, festejado, admirado, ganhava fortunas. Cortejado pelas mais belas mulheres da Europa, teve inúmeros casos amorosos. A presença feminina, aliás, foi uma constância na vida do compositor. E o "Don Juan da Música", tendo reconquistado a liberdade, entregou-se a ardentes aventuras amorosas. Mas não era feliz. A glória não o satisfazia e, desorientado e solitário, sentia a necessidade de uma relação amorosa sólida e estável. O equilíbrio só foi encontrado em 1847, aos 36 anos, quando conheceu a princesa polonesa Carolyne Sayn-Wittgenstein, seu último grande amor.

Casada, mas vivendo separada do marido, Carolyne, aos 28 anos, era culta e tinha a personalidade forte e independente. Embora não fosse bela, Liszt sentiu-se totalmente seduzido pôr esta figura de mulher aristocrática, inteligente e de grande vitalidade e que partilhava de suas idéias, tanto no plano religioso como no intelectual e artístico. Ao seu lado,Liszt viveu o período mais fértil como compositor.

Em 1848, Liszt transferiu-se para Weimar, onde exerceria as funções de mestre-de-capela e regente da corte. Vivendo no castelo da princesa Carolyne, que aguardava a anulação de seu casamento, dividia seu tempo entre a leitura, a regência e a composição. Transformaria esta cidade num dos principais centros musicais da Europa. Ali desenvolveu intensa atividade pela divulgação das obras de seus contemporâneos. Foi durante este período em Weimar que travou conhecimento com Richard Wagner, estabelecendo-se entre os dois uma sólida amizade. Foi graças a Liszt que Wagner teve suas primeiras óperas encenadas.

No plano doméstico, Liszt viu frustrada a sua tentativa de casamento com Carolyne, pois esta não conseguiu obter do Vaticano a anulação de seu casamento. E quando, em 1864, a princesa enviuvou, ambos já haviam renunciado ao projeto de casamento.

Em 1865, Liszt entra, finalmente para a Ordem dos Franciscanos, em Roma. Mas suas ordens menores não o impedem de levar a vida de sempre: compor, lecionar, tocar e reger, além de despertar paixões em corações femininos. Paris e Londres são as últimas cidades a aplaudi-lo.
Mas estas viagens cansam-no bastante. Já debilitado, contrariando as ordens de seu médico, vai a Bayreuth, em julho de 1886, para assistir à apresentação da ópera Tristão e Isolda de seu amigo Wagner, e presencia o triunfo do compositor. O esforço da viagem causa-lhe profundo esgotamento físico. A 31 de julho de 1886, alguns dias de completar 75 anos, já atacado pela pneumonia, Liszt entra em crise aguda de delírio e expira. Morre como viveu, voltado para a arte: antes de dar o último suspiro, balbucia o nome Tristão - uma das maiores criações do gênero humano.

A obra de Liszt

O nome de Liszt ocupa lugar de destaque dentro da história da música como um inovador que foi. Romântico pôr excelência, rompeu com todos os cânones do Classicismo, estabelecendo novos padrões de estilo. Ao mesmo tempo, sua obra contém já os germes do cromatismo wagneriano, do impressionismo debussysta e de muitas tendências estéticas modernas. Sua meta foi encontrar uma linguagem própria, fazendo uma equilibrada e criativa síntese das principais conquistas de seus contemporâneos.

Liszt revolucionou a música de seu tempo. Quando se pensa no Liszt compositor, é sempre necessário lembrar, antes de tudo, que ele foi um virtuose do piano e que dominava completamente sua técnica. Liszt foi o primeiro músico a explorar todas as potencialidades do instrumento,atingindo dimensões orquestrais. Pode-se afirmar que Liszt se deve a moderna técnica do piano. Criou uma série de recursos técnicos: a utilização das sete oitavas (glissandos, escalas, harpejos, acordes), o que retundou na ampliação do espaço sonoro; a exploração de todos os matizes dos registros graves e dos agudos; o enriquecimento da sonoridade, através da escrita em oitavas. Pôr outro lado, a tendência orquestral de Liszt levou-o, também, a utilizar rápidas sucessões de notas; abundância de trinados em terças e sextas; glissandos em notas simples ou duplas; notas repetidas; pequenas apojaturas, trêmulos, grandes saltos de intervalo.

Além disso, Liszt aperfeiçoou a técnica pianística ao dar maior relevo à mão esquerda que em sua obra tem a mesma importância que a direita, sendo muitas vezes usada em passagens solo,com o emprego constante de mãos alternadas e cruzadas.

Principais obras para o piano: Anos de Peregrinação, Estudos Transcendentais, Seis Estudos de Concerto, Sonata em Si Menor, Harmonias Poéticas e Religiosas, Seis Consolações, Valsa Mefisto, dois Concertos para Piano e orquestra, etc.

O tratamento que Liszt deu à orquestra não foi menos original que o recebido pelo piano.

Muito rica, como a maioria das instrumentações dos românticos, em Liszt a orquestração nunca é excessivamente pesada. Entre as principais inovações que caracterizam sua arte sinfônica, incluem-se o tratamento especial dado a cada instrumento, explorando-o em todas as possibilidades de timbre - grande ousadia para a época - o relevo dado à percussão, ao introduzir instrumentos com efeitos especiais, como o triângulo como instrumento solista (Concerto N. 1 para Piano e Orquestra); o uso inovador de glissandos na harpa, procedimento do qual os impressionistas tanto abusariam.

Mas, a maior contribuição de Liszt para a música de programa foi a fixação dos princípios estéticos do poema sinfônico como música de caráter mais psicológico do que descritivo.

Principais obras para a Orquestra: Poemas Sinfônicos, Rapsódias Húngaras, Sinfonia Dante, Sinfonia Fausto.

domingo, 21 de outubro de 2007

Diferenças étnicas: questão de sorte


Se você precisa de alguém para jogar quantidades monumentais de esterco no ventilador, James “Honest Jim” Watson costuma ser o homem ideal para o serviço. Na semana que passou voltamos a ter abundantes motivos para assim classificar esse vencedor do Nobel e co-descobridor da estrutura do DNA, com seus 79 aninhos (mas corpinho de 78 e cabecinha de, bem, uns 150). A não ser que você tenha passado os últimos dias em Marte, deve ter ficado sabendo do bafafá. O americano Watson foi manchete no mundo inteiro ao declarar a um jornal britânico que os problemas sociais e econômicos da África poderiam ser explicados, em parte, por uma possível diferença inata de inteligência entre os africanos e o resto da população mundial, e que qualquer um que já tivesse lidado com empregados negros sabe que eles não são lá muito espertos. (Estou parafraseando, mas me atendo de perto ao conteúdo do que ele disse.)

Não tem nada de muito novo no que Watson vomitou, infelizmente. Digo isso de coração partido, mas o nascimento da genética como ciência, no fim do século 19 e começo do século 20, esteve muito ligado a idéias racistas e à defesa da eugenia, e é bem possível que Watson esteja apenas falando como alguém se que insere dentro dessa tradição intelectual, e não como alguém particularmente preconceituoso ou malevolente. A questão é: por mais politicamente incorreto que Honest Jim seja, ele tem alguma base científica para dizer o que está dizendo?

Creio que, se pesarmos o melhor conjunto possível de evidências, a resposta é um “não” de estourar os tímpanos. Mas não pretendo seguir o caminho tradicional para apoiar essa idéia. Esta coluna não é sobre a dificuldade de medir inteligência com critérios numéricos (em resumo: o QI é uma farsa). Não é sobre a falta de controle em experimentos com humanos (inclusive os eticamente complicados, do tipo forçar uma família branca a criar um negro e uma negra a criar um branco e então comparar os resultados). Não quero abordar nem mesmo o impacto de fatores ambientais e econômicos, e até o do ambiente uterino diferenciado, no desenvolvimento da inteligência. A minha cotovelada em Watson vai por outro caminho e tem três bases: formato dos continentes, agricultura e pecuária.

Acredite: do ponto de vista científico, essas coisas ajudam muito mais a explicar porque brancos e asiáticos do Extremo Oriente (e não negros ou indígenas) são os grupos étnicos mais poderosos do mundo hoje do que as intermináveis tabelas de testes de QI das quais Watson tanto gosta. Temos razões um bocado boas para achar que acidentes da biogeografia da Terra, e não alguma vaga superioridade intelectual nascida dos genes, transformaram alguns povos em dominadores e outros em dominados. Com o perdão da expressão, não foi mérito – foi puro rabo mesmo.

Sementes – e cascos – da vitória

Meu guru nessa visão subversiva da saga humana é o biogeógrafo americano Jared Diamond, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Com seus alertas sobre os riscos da degradação ambiental para a humanidade, o último livro de Diamond, “Colapso”, andou fazendo sucesso. Mas sua melhor obra continua sendo mesmo “Armas, Germes e Aço”, que por coincidência está fazendo dez anos de publicação. No livro, Diamond faz a mãe de todas as perguntas quando se trata de história: porque algumas civilizações triunfam e outras são esmagadas?

A resposta “proximal”, ou seja, a que engloba as causas mais imediatas do triunfo civilizacional, está no título do livro, e não é preciso ser o gênio da lâmpada para formulá-la. Os povos que triunfaram tinham melhor armamento, transmitiam doenças mais ferozes e contavam com melhor tecnologia. Os portugueses tinham espadas de aço, caravelas, canhões e a varíola (entre outras delícias do mundo microbiano); os tupinambás só contavam com flechas e tacapes e não tinham uma epidemia que prestasse para transmitir. “Dã”, diria você.

Por sorte, Diamond não se limita à resposta proximal. “OK”, pergunta-se ele, “quais foram as causas últimas que fizeram com que só alguns povos tivessem tudo isso? Como foi possível 'semear' armas, germes e aço ao longo da história?”

Anote estas três palavrinhas: “produção de alimentos”. Epidemias malvadonas, tecnologia, sociedades altamente organizadas e eficientes e armas letais são claramente o resultado, em última instância, da capacidade de produzir alimentos numa escala bem mais elevada do que a natureza, sem uma mãozinha humana, é capaz de providenciar. As sociedades que foram as pioneiras em desenvolver ou adotar a agricultura e a criação de grandes animais domésticos tiveram, portanto, uma vantagem inicial que foi se tornando cada vez mais difícil de suplantar.

Não é difícil entender o porquê disso. Até cerca de 12 mil anos atrás, não havia uma única sociedade no planeta que dependesse da produção de alimentos para sobreviver. Éramos todos caçadores-coletores, um modo de vida que ainda existe entre tribos isoladas da Amazônia, da África Equatorial e da Nova Guiné. Em muitos aspectos, a vida de caçador-coletor era mais equilibrada e menos estressante do que a dos agricultores e pecuaristas pré-modernos, mas ela tem uma desvantagem óbvia: os recursos naturais não-cultivados, em geral, alimentam muito menos gente por hectare. Enquanto só 0,1% da biomassa de um ambiente natural costuma ser comestível para seres humanos, a agropecuária pode fazer esse potencial subir para 90%.

Mais comida por hectare significa mais gente por hectare. Qualquer tribo de agricultores primitivos levava, portanto, uma vantagem demográfica indiscutível sobre seus vizinhos que ainda viviam da caça e da coleta. E a densidade de gente tem outros fatores secundários ainda mais promissores. O excedente da produção podia “libertar” boa parte da população da necessidade de cultivar pessoalmente sua própria comida. Alguns podiam virar artesãos, outros sacerdotes – e os mais espertalhões poderiam montar a primeira pirâmide social da história, virando chefes.

Especialização cultural e tecnológica e hierarquização da sociedade são, portanto, alguns dos frutos de segunda estação da vida pós-agricultura. Há mais, porém. Criar animais no mundo pré-moderno significa um contato muito próximo com os bichos. Esse contato permitiu a transmissão de microrganismos das vacas, ovelhas, cabras e cavalos para nós – micróbios que são os ancestrais das piores doenças infecciosas da história, como a varíola, a tuberculose, a gripe e o sarampo. A população densa de humanos possibilitou que essas doenças virassem as primeiras epidemias assassinas – antes, um surto de doença não tinha como viajar a grandes distâncias, porque a baixa densidade demográfica dos caçadores-coletores efetivamente barrava a transmissão epidêmica de um grupo a outro. Agora, porém, os microrganismos tinham uma vasta colheita humana a ceifar.

Ao longo do tempo, porém, as tribos de agricultores tendiam a desenvolver resistência às epidemias – quando não tinha imunidade morria, e quem sobrevivia passava essa imunidade a seus descendentes. De quebra, os bichos domésticos também puxavam arados que aumentavam a eficiência agrícola, melhoravam a qualidade da dieta, forneciam couro e outras matérias-primas e ainda funcionavam como tanques de guerra, como no caso dos cavalos.

Quem tem e quem não tem

Tudo isso parece bastante lógico, como você deve ter admitido. Mas ainda persiste um problema óbvio. No Oriente Médio e na China, a domesticação de plantas e animais aconteceu há cerca de 10 mil anos, e demorou poucos milhares de anos para se espalhar pela Europa toda e por grande parte da Ásia. Na América, porém, esse evento só veio há pouco mais de 5.500 anos; na África, há uns 7.000 anos; e a Austrália só passou a ser cultivada no século 18, com a chegada de colonos europeus. Por que o atraso? Por que a dificuldade? Será que os povo não-eurasiáticos sofriam de algum tabu cultural para abandonar a caça e a coleta, ou simplesmente eram burros demais para ter essa idéia logo?

Tudo indica que não é nada disso. Acontece que, por sorte ou azar, algumas regiões do mundo simplesmente foram dotadas pela evolução com um número desproporcionalmente maior de espécies vegetais e animais que já estavam “pré-adaptadas” para a domsticação, digamos assim.

Comecemos pelas plantas. Os primeiros vegetais a serem cultivados no Oriente Médio são cereais anuais, ou seja, que podem ser colhidos com abundância todos os anos – não era preciso plantar uma árvore e esperar um tempão de barriga vazia antes que ela desse frutos. Também são plantas com alto teor calórico e uma quantidade boa de proteína, como é o caso do trigo. Finalmente, são capazes de polinizar a si mesmas, o que facilita a produção. E possuem grãos relativamente grandes, o que faz valer mais a pena recolhê-las na natureza.

Bem, acontece que há uma brutal desigualdade na distribuição das plantas com essas características ideais ao redor do globo. Um estudo que catalogou as 56 espécies de gramíneas selvagens com as maiores sementes do planeta mostrou que nada menos que 38 delas estão na região do Mediterrâneo (32 desse total) ou no Extremo Oriente. É uma lavada absurda, quando se considera que todo o continente americano tem só 11 dessas espécies na natureza, a África abaixo do Saara só quatro e a Austrália só duas. Os antigos mesopotâmios e chineses simplesmente tinham mais matéria-prima para trabalhar quando suas sociedades ficaram prontas para partir para a agricultura.

O mesmo cenário, aliás, repete-se no caso dos grandes mamíferos – bichos com mais de 50 kg que se tornariam a base das civilizações antigas, como vacas, cabras, ovelhas e cavalos. Desses bichos, a Europa e a Ásia tinham 72 espécies, a África Subsaariana 51, as Américas 24 e a coitada da Austrália, apenas uma espécie. A maior variedade simplesmente multiplicou as chances de que os antigos eurasiáticos achassem mamíferos que se prestam à domesticação – bichos cujos ancestrais selvagens eram relativamente pouco agressivos, com uma hierarquia social que podia ser cooptada pelos humanos, capazes de viver em confinamento relativo, de crescimento relativamente rápido e dieta não muito exigente. De novo, sorte pura.

“OK”, você poderá dizer, “tudo isso explica por que a China e o Oriente Médio criaram civilizações antes das Américas e da África abaixo do Saara. Mas não por que os europeus acabaram se tornando historicamente dominantes?”

Mais uma vez, o acaso geográfico interveio em favor dos habitantes da Europa. Pegue um mapa da Europa e da Ásia e compare com os mapas das Américas e da África. Repare no eixo predominante das distâncias – na Eurásia, o comprimento é maior de leste a oeste, enquanto o continente americano e o africano são mais compridos de norte a sul. E isso pode ter feito toda a diferença.

Eu explico: numa faixa imensa, que vai de Portugal no oeste ao Japão no leste (com algumas interrupções causadas por montanhas e desertos, é verdade), a latitude é a mesma, e portanto a maioria das variáveis do clima e da duração das estações também. Isso significa que os europeus não tiveram a menor dificuldade de simplesmente importar o pacote pronto de animais domésticos e culturas agrícolas do Oriente Médio, e pelo menos parte desse pacote também pode se difundir para o leste – afinal, plantas e animais não precisavam se adaptar a climas fundamentalmente diferentes dos de sua região nativa.

Compare essa situação relativamente fácil com o que acontece nas Américas, por exemplo. Plantas e animais precisavam atravessar um imenso gradiente de latitudes e climas para circular pelo continente. Embora isso não tornasse as coisas impossíveis – afinal, o milho do México acabou sendo cultivado tanto pelos índios brasileiros quanto pelos povos do leste dos atuais Estados Unidos –, atrapalhava um bocado. O único mamífero de grande porte domesticado no nosso continente, a lhama, nunca deixou os confins de seu habitat andino para carregar mercadorias em seu lombo em outros lugares.

As barreiras diretas para plantas e animais acabavam se convertendo em barreiras indiretas para culturas, tecnologias e idéias. Para dar um exemplo simples, os Reis Católicos da Espanha, Fernando e Isabel, não só financiaram a viagem de Colombo como sabiam muito bem que Constantinopla era governada pelos turcos. Já o Império Inca do Peru e o Império Asteca do México muito provavelmente não tinham a menor idéia da existência um do outro.

A conectividade proporcionada pelo eixo continental leste-oeste da Eurásia provavelmente é um dos fatores-chave para o rápido intercâmbio e competição de bens e idéias que fez da região o principal celeiro de inovação tecnológica e cultural da história humana. Os europeus tiveram a sorte de estar posicionados perto dos grandes centros de origem da produção de alimentos e de contarem com um ambiente natural ao mesmo tempo favorável à revolução agropecuária e menos vulnerável que o do Oriente Médio, onde a degradação ambiental logo atrapalhou os frutos da agricultura.

E, assim, foi com o trigo da Mesopotâmia, os cavalos do mar Negro, o ferro dos assírios e a pólvora chinesa que os brancos conseguiram sua supremacia mundial. A coisa poderia ter sido diferente? Sem dúvida. O imperador chinês decidiu que não queria mais viagens transoceânicas de sua frota no século 15, impedindo que os orientais alcançassem muito antes a preponderância que ameaçam assumir hoje.

De qualquer maneira, que a multidão de dados empíricos e bem-costurados acima sirva de lição para quem busca soluções fáceis para explicar a situação lastimável dos povos não-brancos hoje. A derrota deles não teve absolutamente nada a ver com inteligência inata. E usar um argumento desses para se vangloriar é um desserviço ao passado e, principalmente, ao futuro.

Meu pós-escrito, desta vez, é um convite à leitura de um livro soberbo:

A pergunta inocente de um nativo da Papua Nova Guiné, em 1974, fez com que o escritor Jared Diamond desenvolvesse toda a teoria que permeia seu premiado livro, "Armas, Germes e Aço", sempre tentando solucionar o maior mistério da história da humanidade - por que algumas sociedades florescem mais do que as outras? Se você acha que a história é só um fato depois do outro, abra esse livro e surpreenda-se.

Baseado na obra vencedora do referido prêmio Pulitzer, o documentário em três partes da National Geographic "A Evolução da Humanidade - Armas, Germes e Aço" traça a jornada dos seres humanos nos últimos 13.000 anos - desde o nascimento da agricultura, no final da Era Glacial, até a realidade da vida no século 21. Gravado em quatro continentes, mistura gravações atuais, entrevistas com historiadores, arqueólogos e cientistas, reconstrução histórica e animação computadorizada.

Reinaldo José Lopes
Reporter da editoria de Ciência e Saúde do G1

A verdadeira história de Schulz e Charlie Brown


Recém-lançada, obra destrincha trajetória de um dos maiores artistas dos EUA.

Charles Schulz, o criador da tira "Peanuts" (mais conhecida no Brasil por “Snoopy”), costumava dizer que desejaria ser Andrew Wyeth. O que Wyeth fez foi arte de verdade, resmungava ele, que se via apenas como um cartunista de jornal, um desenhista , cujo trabalho não permaneceria. Mas a verdade é que hoje a sua obra – destrinchada no recém-lançado “Peanuts and Schulz: A biography” (Harper Collins, 665 p., importado) - é lida por muito mais gente do que as que viram o trabalho de Wyeth.

Quando apareceu, nos anos 40, Schulz transformou completamente as tiras de jornais, reduzindo seus tipos infantis a quase abstrações - grandes cabeças redondas se equilibrando em corpos minúsculos. Diferentemente de seus pares nos quadrinhos, as tiras de “Peanuts” conseguiam registrar emoções adultas, como ansiedade, depressão e desilusão.

"Peanuts" foi amado por todo mundo: por "descolados", universitários (nos anos 60 especialmente); por presidentes (Ronald Reagan escreveu uma vez um bilhete de fã para Schulz, dizendo que se identificava com Charlie Brown); pelos astronautas da Apollo 10, que deram o nome de Charlie e Snoopy a seus veículos de órbita e de pouso. No seu auge, a tirinha atingia 300 milhões de pessoas em 75 países e 21 línguas todo dia. Os vários especiais animados para a TV continuam chegando ao topo das pesquisas (norte-americanas) de audiência sempre que são levados ao ar, e o musical "Você é um cara legal, Charlie Brown", depois de ter lotação esgotada durante quatro anos na Broadway, agora é uma peça básica de colégios e produções de teatro amadoras - o musical mais produzido de todos os tempos.

O sucesso dos quadrinhos e de seus subprodutos - calendários, lençóis, lancheiras, canecas e tantos outros - fez de Schulz um homem extremamente rico. Nos anos 80 ele era um dos dez artistas mais bem pagos da América, bem próximo de Oprah e de Michael Jackson. Na verdade, se chamarmos de artista alguém que pinta ou desenha, não é demais dizer que Charles Schulz foi o artista americano mais popular e bem-sucedido que já existiu. E foi também, segundo mostra a biografia de David Michaelis, um dos mais solitários e infelizes.

Como Michaelis mostra, "Peanuts" era quase transparentemente biográfica. Houve mesmo uma inatingível Garota-ruiva. Seu nome era Donna Mae Johnson, e ela rechaçou Schulz em julho de 1950. Ele amargou a rejeição por toda sua vida. Charlie Brown, sem-graça, desiludido, mas secretamente ambicioso, era o próprio artista, claro, assim como Linus, o esquisito, e Schroeder, meticuloso e talentoso. E acima de tudo, Schulz era também Snoopy, com seus delírios, suas fantasias, seu sentimento de ser sempre incompreendido e desvalorizado. Violeta, com suas vibrações maléficas, e Lucy, mandona, impaciente e sarcástica, eram todas as mulheres controladoras e repressivas da vida do artista, especialmente sua mãe e sua primeira esposa, Joyce.

Mas, exceto pelas tiras, Schulz deixou poucas pistas sobre o que estava se passando lá dentro de sua cabeça. Mesmo que tenha sido um dos primeiros a introduzir temas psicológicos nos quadrinhos, com Lucy e seu quiosque psiquiátrico de plantão, ele era decididamente não-analítico, sua natureza era um mistério tanto para ele quanto para todo mundo." Levei muito tempo para me tornar um ser humano", disse Schulz ao entrevistador de uma revista em 1987.

As pessoas que conheciam Schulz geralmente o chamavam de Sparky (cintilante), apelido dado por um tio a ele quando nasceu em referência a um personagem de outra tira de quadrinhos. Era um apelido ironicamente inapropriado - não havia nada de cintilante no jovem Sparky, que era miúdo, tímido, estranho - e fiel ao mesmo tempo, vinculando-o, desde pequeno, ao que escolheu como o trabalho da sua vida : produzir quadrinhos diários para jornal.

Schulz nasceu e cresceu num bairro de classe operaria. Seu pai, nascido na Alemanha, falava alemão em casa e tinha uma barbearia (assim como o pai de Charlie Brown). Sua mãe, que nunca completou o primário, veio de uma família de fazendeiros noruegueses casmurros e beberrões, e era uma dessas pessoas que se sentem inadequadas e superiores ao mesmo tempo. Michaelis a descreve como sendo fria, distante, cínica e insolente, e a culpa por muitas das angústias de Sparky, especialmente por seu sentimento constante de não ser amado o suficiente.

Schulz foi criado num ambiente sufocante, regido pela igreja e pela família, onde a leitura de livros era vista como algo estranho e onde as crianças, longe de estarem acima da média, eram desencorajadas a desenvolver sua auto-estima.

Tendo entrado cedo na escola primária, Schulz estava sempre um ano à frente dos demais colegas, o que fez com que pelo resto da sua carreira escolar fosse sempre o menor, o mais franzino e a criança mais estranha da classe. Mesmo sendo um jogador decente de hockey e bom o suficiente em golfe para ser o número 2 no time da escola, quando chegou ao segundo grau Schulz estava tão tomado pela timidez que passava quase invisível. "Eu não era realmente odiado ", diria ele mais tarde. "Ninguém se importava muito comigo".

Sua chance de aparecer foi perdida quando os quadrinhos que desenhou para o álbum anual da escola foram inexplicavelmente rejeitados - uma rejeição que ele nunca perdoou, assim como não perdoou as garotas que não notaram que ele as adorava à distância.

Ao término da graduação, sua timidez e insegurança o impediram de freqüentar a faculdade de artes e o empurraram para um curso por correspondência na Art Instruction Inc., o tipo de escola que ensinava a fazer anúncios no verso de caixas de fósforo. (Ele achou as lições tão instrutivas que eventualmente se juntou ao corpo docente e anos depois fez parte do conselho da instituição).

Em 1942 Schulz foi convocado para a guerra e, desconsolado e aterrorizado, foi para o quartel logo depois que sua mãe faleceu. Mas, na verdade, ele foi bem sucedido no exército e voltou mais confiante em si mesmo. Começou até a sair com garotas - mesmo que achasse que o presente adequado para elas fosse uma Bíblia. (Toda sua vida Schulz foi o mais enquadrado possível: ele não fumava, não bebia ou falava palavrões, inspirado no fato de que Jesus também não fazia nada dessas coisas. O vinho de Canaã, o jovem Sparky costumava afirmar, era não-alcoólico).

Em 1951 Schulz casou-se com Joyce Halverson, uma mulher de 22 anos divorciada, com uma filha pequena de um casamento equivocado e curto com um cowboy. Ele tratou de adotar a filha, Meredith, e passou a dizer que ela era sua, mesmo quando a adolescente começou a fazer perguntas delicadas. De certo modo, era provàvelmente um casamento de conveniência para ambos, mas por um tempo foi feliz o suficiente, e eles tiveram quatro filhos juntos. Sparky, contudo, era um pai e marido muitas vezes desatento e indiferente, por estar absorvido em si mesmo e alimentando secretamente grandes ambições - era casado com seu trabalho na verdade.

Depois de muitas rejeições e falsos começos, ele finalmente tinha um quadrinho semanal chamado "Li'l Folks" publicado na “St. Paul Pioneer Press”, e que passou a ser distribuído no país em1950 pela United Feature, que insistiu para que o título fosse mudado para "Peanuts". Schulz odiava o nome mas concordou, adicionando isso a sua lista sempre crescente de mágoas. Ele pensou inicialmente em fazer quadrinhos de ação, mas começou a desenhar crianças porque isso parecia vender bem. As primeiras tiras já chegavam ao que hoje parece ser o autêntico tom emocional "schulziano" - "Sim, senhor! Velho Charlie Brown.... Como o odeio!" - mas levou mais tempo para o desenho evoluir, para as cabeças dos personagens crescerem e os membros encolherem.

"Peanuts" teve um crescimento lento no início. Emplacou nos anos 60, quando parecia falar quase acidentalmente para todos que vivenciavam o hiato de gerações. Em seguida, quase afundou em uma rodada de licenciamentos para uma maré de bugigangas envolvendo os nomes dos personagens. Schulz dizia "sim" para tudo, por mais popularesco que fosse - brinquedos, cartões, livros, camisetas - até o ponto em que mesmo seus fãs começaram a reclamar que ele estava se vendendo barato.

O que salvou a tirinha, sugere Michaelis, foi a transformação de Snoopy em personagem principal no final dos anos 60, e a maneira como a vida surreal e fantástica do cãozinho de Charlie Brown passava a dominar os quadrinhos.

À essa altura, Schulz, sua mulher e filha viviam na Califórnia do Sul, numa Disneylândia privada, com direito a estábulos, mini-campos de golfe e o ringue de patinação no gelo. Apesar de seu sucesso, Schulz andava irritadiço, sozinho, deprimido, e cada vez mais sujeito a ataques de pânico; Joyce se sentia sobrecarregada e pouco valorizada. As brigas entre eles, seus períodos de frieza mútuos, inspiraram alguns dos quadrinhos de “Peanuts”- as tiras em que Charlie e Lucy parecem presos na eterna luta homem/mulher, e onde ela sempre leva a melhor.

À medida que entrava na meia-idade, Schulz ganhou corpo, parou de usar corte de cabelo militar e descobriu que era até atraente para as mulheres. Nesse período, revela a biografia, o criador de Snoopy teve uma relação extra-conjugal séria, e em 1973, um ano mais ou menos depois de se divorciar de Joyce, se casou com Elisabeth Jean Forsyth, dezesseis anos mais jovem que ele, que tinha encontrado – onde mais poderia ser? - numa pista de patinação no gelo.

Este segundo casamento foi mais feliz, devido ao empenho maior de Jeannie, como ela era conhecida. Mas Schulz ficava muitas vezes reservado e de humor alterado, e não deixava de flertar compulsivamente.

Mas a vida de Schulz é uma história clássica americana: a do gênio solitário e não compreendido que se apega a seus sonhos, consegue riqueza e fama, e descobre que elas não o fazem feliz no final. O fato de ter escolhido os quadrinhos como seu veículo o vincula, por um lado, a figuras pioneiras e igualmente não compreendidas como Winsor MCay, criador de “Little Nemo”, e George Harriman, pai de “Krazy Kat”. Por outro lado, sua carreira também lembra a de nomes ainda atuantes nas histórias em quadrinhos como R. Crumb, Chris Ware e o artista gráfico Seth - que está editando no momento a coleção completa das obras de "Peanuts” para a Fantagraphics -, artistas com os quais partilha temas como os da solidão, da perda e da incapacidade de fazer conexões.O Jimmy Corrigan de Ware é em muitos aspectos o próprio Charlie Brown transformado, ainda que adolescente, em um velho precoce. E em Crumb podemos ver o que Schulz poderia ter sido se tivesse conseguido deixar sua raiva de lado.

Michaelis, que contou com a cooperação da família Schulz para obter as informações para a biografia, conta esta história com brilho e de maneira envolvente, e, em geral, de modo sucinto e sem repetições. Encontramos bem menos do que se poderia esperar sobre a rica tradição americana de tiras de jornais que gerou Schulz, e mais sobre assuntos como os padrões de metástase de um câncer cervical (doença que matou a mãe de Schulz). Mas, ao longo de seu livro, Michaelis mantém o afeto pelo seu biografado, sem perder de vista o quão exasperador e narcisista Schulz podia ser também.

Mas talvez a atitude mais sensata de Michaelis tenha sido a de apimentar as páginas da biografia com as próprias tiras de "Peanuts", dúzias delas, geralmente sem comentários ou notas de pé de página ou mesmo datas. Com isso, o autor consegue nos lembrar continuamente da importância do biografado e do potencial não apenas humorístico, mas de sentimentos e de eloqüência, que reside estranhamente nesta forma de arte onde Schulz construiu sua morada.

New York Times
 
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