domingo, 21 de outubro de 2007

O que move a Humanidade

Existem muitas teorias sobre o que fez o Homem dominar o planeta e construir civilizações enquanto o joão de barro, por exemplo, só consegue construir conjugados, e levar grandes mulheres para a cama enquanto o máximo que um gorila conseguiu foi segurar a mão da Sigourney Weaver. Dizem que o cavalo é mais bonito do que o Homem e a barata é mais resistente, mas não há notícia de uma fuga a tres vozes composta por um cavalo ou uma liga de aço inventada por uma barata. Tudo se deveria ao fato de uma linhagem particular de macacos ter desenvolvido o dedão opositor, com o qual conseguiu descascar uma banana e segurar um tacape, as condições primordiais para dominar o mundo. A vaidade, outra característica exclusivamente humana (o pavão também é vaidoso, mas não gasta uma fortuna com as penas dos outros para fazer sua cauda) também teria contribuido para que o Homem prevalecesse, pois de nada lhe adiantariam suas façanhas com o polegar, e com as mulheres, se não pudesse contar depois. Dai nasceu a linguagem, e com ela a mentira, e Homem estava feito.

Mas eu acho que a verdadeira força motriz do desenvolvimento humano, a razão da superioridade e do sucesso do Homem, foi a preguiça. Com a possivel exceção da própria preguiça, nenhum outro animal é tão preguiçoso quanto o Homem. O desenvolvimento do dedão opositor nasceu da preguiça de combinar dentes e garras para comer e ainda ter que limpar os farelos do peito depois. A linguagem é fruto da preguiça de roncar, grunhir, pular e bater no peito para se comunicar com os outros e, mesmo, ninguém aguentava mais mímica. A técnica é fruto da preguiça. O que são o estilingue, a flecha e a lança senão maneiras de não precisar ir lá e esgoelar a caça ou um semelhante com as mãos, arriscando-se a levar a pior e perder a viagem? O que estaria pensando o inventor da roda senão no eventual desenvolvimento da charrete que,atrelada a um animal menos preguiçoso do que ele, o levaria a toda parte sem que ele precisase correr ou caminhar? Dizem que a agressividade e o gosto pela guerra determinaram o avanço científico da humanidade e se é verdade que a maioria das invenções modernas nasceu da necessidade militar, também é verdade que o objetivo de cada nova arma era o de diminuir o esforço necessario para matar os outros. O produto supremo da ciência militar, o foguete intercontinental com ogivas nucleares múltiplas, é uma obra prima da preguiça aplicada: apertando-se um único botão se mata milhões de outros sem sair da poltrona. Uma combinação perfeita do instinto assassino e do comodismo. A apoteóse do dedão.

Toda a história das telecomunicações, desde os tambores tribais e seus códigos primitivos até os sinais de TV e a internet, se deve ao desejo humano de enviar a mensagem em vez de ir entregá-la pessoalmente ou mandar um guri resmungão. A fome de riqueza e poder do Homem não passa da vontade de poder mandar outros fazerem o que ele tem preguiça de fazer, seja trazer os seus chinelos ou construir as suas pirâmides. A quimica moderna á‚á filha da alquimia, que era a tentativa de ter o ouro sem ter que procurá-lo, ou trabalhar para merecê-lo. A fisica e a filosofia são produtos da contemplação, que é um subproduto da indolência e uma alternativa para a sesta. A grande arte também se deve à preguiça. Não por acaso, o que é considerada a maior realizaçao da melhor época da arte ocidental, o teto da Capela Sistina, foi feita pelo Michelangelo deitado. Proust escreveu o "Em busca do tempo perdido" deitado. Vá lá, recostado. As duas maiores invenções contemporâneas, depois do antibiótico e do microchip, que são a escada rolante e o manobrista, devem sua existência à preguiça. E não vamos nem falar no controle remoto.

(Se você não desistiu na segunda linha e leu até aqui é porque não tem preguiça. Conheço o seu tipo. É gente como você que causa os problemas do mundo. São vocês que descobrem quando o autor está com preguiça e reaproveita um texto antigo. E isso não é humano!)

Luis Fernando Veríssimo

Canción de otoño en primavera

A Gregorio Martínez Sierra

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...


Plural ha sido la celeste
historia de mi corazón.
Era una dulce niña, en este
mundo de duelo y de aflicción.

Miraba como el alba pura;
sonreía como una flor.
Era su cabellera obscura
hecha de noche y de dolor.

Yo era tímido como un niño.
Ella, naturalmente, fue,
para mi amor hecho de armiño,
Herodías y Salomé...

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...


Y más consoladora y más
halagadora y expresiva,
la otra fue más sensitiva
cual no pensé encontrar jamás.

Pues a su continua ternura
una pasión violenta unía.
En un peplo de gasa pura
una bacante se envolvía...

En sus brazos tomó mi ensueño
y lo arrulló como a un bebé...
Y te mató, triste y pequeño,
falto de luz, falto de fe...

Juventud, divino tesoro,
¡te fuiste para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...


Otra juzgó que era mi boca
el estuche de su pasión;
y que me roería, loca,
con sus dientes el corazón.

Poniendo en un amor de exceso
la mira de su voluntad,
mientras eran abrazo y beso
síntesis de la eternidad;

y de nuestra carne ligera
imaginar siempre un Edén,
sin pensar que la Primavera
y la carne acaban también...

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...


¡Y las demás! En tantos climas,
en tantas tierras siempre son,
si no pretextos de mis rimas
fantasmas de mi corazón.

En vano busqué a la princesa
que estaba triste de esperar.
La vida es dura. Amarga y pesa.
¡Ya no hay princesa que cantar!

Mas a pesar del tiempo terco,
mi sed de amor no tiene fin;
con el cabello gris, me acerco
a los rosales del jardín...

Juventud, divino tesoro,
¡ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar, no lloro...
y a veces lloro sin querer...


¡Mas es mía el Alba de oro!

Rubén Darío, 1905

sábado, 20 de outubro de 2007

Antonio Meneses


O nome do brasileiro que, na época com 24 anos, morava e estudava em Stuttgart desde os 17, foi subitamente revelado em 6 de julho de 1982: Antonio Jerônimo de Meneses Neto recebera a medalha de ouro no Concurso Internacional Tchaikovsky de Violoncelo. Realizado de quatro em quatro anos, esse é o prêmio mais ambicionado da categoria. O próprio Antonio Meneses espantou-se com a escolha, pois tudo indicava que o premiado seria o russo Aleksandr Rudin, favorito do público.

O Prêmio Tchaikovsky fez Antonio Meneses ser condecorado pelo governo brasileiro, no mês seguinte, com a Ordem de Rio Branco no grau de oficial. Era o reconhecimento de algo que um virtuose como o italiano Antonio Janigro já soubera havia muito tempo. Ele fora o fundador do conjunto I Solisti di Zagreb e quem, durante uma excursão ao Brasil, ouviu um violoncelista que já mostrava virtuosidade aos 16 anos. Reconhecendo seu talento, levou-o a estudar primeiro em Düsseldorf e depois em Stuttgart. O pernambucano Antonio, filho do trompista João Meneses, da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, acabara de ganhar o Concurso Jovens Instrumentistas, da Rede Globo.

Em 1977 ele ganhou o Prêmio Internacional da Televisão de Munique, que não era concedido havia 20 anos. E além do júri moscovita, outro a prontamente perceber as qualidades do instrumentista brasileiro foi Herbert von Karajan, que sempre se interessou em identificar e promover talentos jovens. O titular da Filarmônica de Berlim convidou Meneses a participar do Concerto de Páscoa que realizava todos os anos em Salzburgo, na sua Áustria natal. Meneses tocou o Concerto Duplo de Johannes Brahms ao lado de uma outra descoberta do maestro: a violinista Anne-Sophie Mutter, hoje também uma estrela de primeira grandeza no universo dos solistas de cordas.

Hoje um dos principais violoncelistas do cenário internacional, o pernambucano Antônio Meneses, nascido em Recife em 1957, começou a se dedicar à música aos 10 anos. Foi orientado por seu pai, também músico, que fazia questão de que seus três filhos dedicassem parte do tempo ao estudo de um instrumento de cordas. Seus estudos prosseguiram então com a Profª. Nídia Otero.

Meneses está hoje no primeiro time dos grandes violoncelistas internacionais, ao lado de Yo-Yo Ma, Lynn Harrell, Heinrich Schiff e poucos outros. O rigor estilístico de suas leituras, o requinte técnico que resulta na produção de sonoridades luminosas e encorpadas, a afinação perfeita e um preciso domínio do legato aliam-se, nele, ao ecletismo do repertório.

É o tipo do músico que está à vontade tanto no Concerto em Ré Maior de Haydn quanto em uma obra moderna como a Fantasia para Violoncelo de Villa Lobos - como o demonstrou ao executá-la, com a Osesp, numa das últimas vezes em que esteve em São Paulo. Aliás, Meneses é reconhecidamente um grande divulgador da obra de Villa-Lobos.

Apresentou-se por cerca de 2 anos com um instrumento ímpar: o violoncelo Matteo Goffriller de 1733, utilizado pelo célebre Pablo Casals por mais de 50 anos.

Apresenta-se regularmente com as mais importantes orquestras do mundo como a Filarmônica de Berlim, a Sinfônica de Londres, a Sinfônica da BBC, a Orquestra do Concertgebouw de Amesterdã, a Sinfônica de Viena, a Filarmônica Checa, a Filarmônica de Moscou, a Filarmônica de São Petersburgo, a Filarmônica de Israel, a Orchestre de la Suisse Romande, a Orquestra da Rádio da Baviera, a Filarmônica de Nova Iorque, a National Symphony Orchestra (Washington D.C.) e a Sinfônica NHK de Tóquio, entre outras.

Entre os distintos maestros com quem colaborou, contam-se Herbert von Karajan, Riccardo Muti, Mariss Jansons, Claudio Abbado, André Previn, Andrew Davis, Semion Bychkov, Herbert Blomstedt, Gerd Albrecht, Yuri Temirkanov, Kurt Sanderling, Neeme Järvi, Mstislav Rostropovich, Vladimir Spivakov e Riccardo Chailly.

É também um convidado regular de importantes festivais de música, incluindo os de Porto Rico (Festival Pablo Casals), Salzburgo, Lucerna, Viena, Berlim, Praga (Festival de Primavera), Nova Iorque (Mostly Mozart), la Grange de Meslay (festival de Sviatoslav Richter na França) e Colmar (festival de Vladimir Spivakov na França). Apresenta-se regularmente em recitais de música de câmara, tendo colaborado com os quartetos Emerson, Vermeer, Amati e Carmina.

Desde Outubro de 1998 é membro do lendário Beaux-Arts Trio junto com Menahem Pressler (piano) e Daniel Hope (violino).

Antonio Meneses realizou duas gravações para a Deutsche Grammophon, com Herbert von Karajan e a Orquestra Filarmônica de Berlim - Duplo Concerto para Violino e Violoncelo de Brahms, com Anne Sophie Mutter; e Don Quixote de Richard Strauss.

Gravou também o Concerto para Violoncelo de Eugene D'Albert e obras de David Popper, com a Orquestra Sinfónica de Basileia; os três Concertos para Violoncelo de Carl Philip Emanuel Bach, com a Orquestra de Câmara de Munique (Pan Classics); as seis Suites para Violoncelo Solo de J. S. Bach (Nippon Phonogram); o Trio com Piano de Tchaikovsky (EMI-Angel); os Concertos e a Fantasia para Violoncelo e Orquestra de Heitor Villa-Lobos (Auvidis-França); a obra completa para violoncelo e piano do mesmo compositor, com Cristina Ortiz, Cellisimo (Pan Classics) com Gérard Wyss;

Das suas últimas gravações podemos destacar as Seis Suites para Violoncelo de J.S.Bach (AVIE).

Sua mais recente gravação contem obras de Schumann e Schubert com Gérard Wyss ao piano (AVIE).

Além da sua presença em concertos e recitais Antonio Meneses ministra masterclasses na Europa, na América e no Japão.

A partir de outubro de 2007 assumirá uma posicão de professor de violoncelo no Consevatório de Berna, Suíça.

Antonio Meneses toca um violoncelo de ALESSANDRO GAGLIANO feito em Nápoles ca. 1730.

http://www.antoniomeneses.com/
 
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