terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Em nome de Deus

PERSISTÊNCIA: Peregrino muçulmano ora no Deserto do Sinai. Sua fé é um exercício de disciplina que abre portas para o território do sagrado


TRÊS EM UM: A Grande Mesquita de Meca durante a peregrinação anual, judeu no Muro das Lamentações em Jerusalém e cardeais católicos no Vaticano: símbolos do monoteísmo que os novos ateístas consideram uma afronta irracional à ciência.



BUDISMO: O Dalai-Lama abençoa monges tibetanos. A dissolução do ego por meio da meditação leva a uma compreensão mais refinada da realidade.

Em seu novo livro, a escritora inglesa Karen Armstrong rebate os papas do novo ateísmo, que condenaram à morte as religiões.

Ao ver Buda meditando, sentado sob uma árvore, um brâmane ficou fascinado com sua serenidade e autodisciplina. “Você é Deus?”, perguntou-lhe o monge, ao ver sua concentração transformar-se numa extraordinária paz interior. “Não”, foi a resposta. “Apenas descobri um novo potencial na natureza humana, que nos torna capazes de viver em paz e harmonia neste mundo de tantos conflitos e sofrimentos.” O segredo, disse Buda, era não tanto crer, mas, sobretudo, praticar a meditação com afinco. “Desse modo, cada um atinge o máximo de sua capacidade, ativa partes adormecidas de sua mente, neutraliza o próprio ego e se torna um ser humano plenamente iluminado.” Por fim, ao despedir-se do sacerdote curioso, Buda disse: “Lembre-se de mim como alguém que despertou”.

É com esse episódio singelo que a escritora de origem irlandesa Karen Armstrong conclui seu mais novo livro, The case for God (em tradução livre, Uma defesa para Deus). É um fecho fiel tanto à vida de Karen quanto à essência de seu livro. Ex-freira católica durante os trepidantes anos 1960, portadora de epilepsia, Karen perdeu a fé – para resgatá-la, décadas adiante, sob uma nova ótica, semelhante à de Buda. Para ela, o encontro de Deus deriva menos de uma crença e mais do esforço pessoal. Autora de mais de 20 títulos sobre religião, entre eles aclamadas biografias de Maomé e de Buda e uma história da própria Bíblia, Karen nunca mais retornou formalmente à Igreja Católica ou a qualquer outra. “Sou uma monoteísta free-lance”, diz ela.

Com lançamento no Brasil previsto para o final de 2010, The case for God faz parte de uma nova leva de livros que defendem a religião de ataques recentes. Fazem parte dessa leva God is back (Deus voltou), escrito por John Micklethwait e Adrian Wooldridge, jornalistas da revista The Economist, e Reason, faith and revolution: reflections on God debate (Razão, fé e revolução: reflexões sobre o debate a respeito de Deus) , do crítico literário inglês Terry Eagleton. Todos esses trabalhos partem de uma mesma constatação: mesmo sob o fogo cerrado do racionalismo ateu, a devoção a Deus e às religiões continua a se fortalecer no mundo todo.

Essa nova onda tenta revidar os ataques do grupo de pensadores conhecidos como os “novos ateus”. São autores como o biólogo inglês Richard Dawkins, cuja defesa ferrenha da teoria da evolução das espécies valeu-lhe – ou custou-lhe, depende... – o apelido de Rotweiller de Darwin; ou o jornalista anglo-americano (e colunista de ÉPOCA) Christopher Hitchens, que considera a ideia de Deus uma crença maligna e totalitária, com seus dias contados pela ciência. A dupla, acrescida do neurocientista Sam Harris e do filósofo Daniel Dennett, ambos americanos, ficou conhecida, nos meios intelectuais, como os Cavaleiros do Apocalipse, pela virulência de seus ataques à religião. “Elas permitem que visões, que de outra forma seriam consideradas sinais de loucura, tornem-se aceitas e, em muitos casos, veneradas como sagradas”, diz Harris.

Em The case for God, Karen faz o melhor contra-ataque às teses do grupo. “Os novos ateus são teologicamente iletrados”, escreve ela. “Como os fundamentalistas religiosos, eles infantilmente concebem Deus como um ser poderoso que os homens não conseguem enxergar.” Para Karen, o engano comum a ambos é analisar os textos sagrados em sua literalidade. Uns para negar cientificamente a ideia de Deus. Outros para distorcê-la com finalidades políticas.

Por séculos, afirma Karen, as ideias de Deus e dos livros sagrados foram bem mais sutis e profundas do que hoje supõem novos ateus e fundamentalistas judeus, cristãos ou islâmicos. Mas o avanço da ciência, a partir do Iluminismo, cerceou nossa mente e restringiu seu alcance a fatos empiricamente comprováveis. Esse cientificismo triunfante foi inaugurado pelas três leis da mecânica clássica, do físico inglês Isaac Newton, e teve seu auge dois séculos mais tarde, com a teoria da evolução das espécies, do naturalista inglês Charles Darwin. Aos poucos, de acordo com Karen, a ciência suprimiu um dos ingredientes mais relevantes da fé: o mito, a capacidade humana de, por assim dizer, vislumbrar o inconcebível. “Esse conflito entre ciência e religião acabou nos afastando das formas mais puras de fé. As pessoas esqueceram que a razão e o mito sempre foram complementares no ser humano”, diz Karen. Ao descartar o mito, a ciência, segundo ela, sequestrou a religião da vida da humanidade.

A partir do século XVIII, gradativamente tudo passou a exigir a chancela da ciência. Mas nada, teoria ou lei alguma, conseguiu abalar o fundamento mais sólido das religiões: a necessidade humana pelo sagrado. “Somos, por natureza, criaturas em busca de sentido. O Homo sapiens é, também, o Homo religiosus”, afirma Karen. As ideias teológicas vão e vêm, mas a busca humana por sentido permanece. “A religião não existe para nos explicar a origem do Universo. Esse é o papel da ciência”, diz Karen. “Religiões nos ajudam a lidar com os aspectos da vida para os quais não existem respostas fáceis: a morte, a dor, o sofrimento, as injustiças da vida e as crueldades da natureza.” Em suma: religião é refletir sobre questões que não cabem na lógica ou num simples cálculo. É refletir sobre o mito. Karen delimita os domínios da razão e da fé com um exemplo de rara clareza. “A razão pode até nos curar do câncer”, diz. “Mas não nos ensina a agir ao receber seu diagnóstico nem nos ajuda a morrer em paz.”

O primeiro passo rumo à conexão com o sagrado, segundo Karen, é não tratar Deus como um ente supremo, mas sim como o mistério que foi, é e, por muito tempo, ainda será. Numa palavra: como o desconhecido. Karen propõe um enfoque da religião que tenha mais a ver com o coração e a arte do que com a razão pura. Que lide mais com rituais que com ideias. “Só assim ela se torna uma fonte de fortalecimento pessoal”, diz ela. “Você só aprende a cozinhar cozinhando. Com a fé é a mesma coisa.”

O segundo passo, de acordo com Karen, é adquirir a persistência revelada por Buda no episódio citado. “A fé requer trabalho duro e persistência”, afirma Karen. A religião, diz, é uma disciplina prática. Ela não brota de reflexões abstratas, mas de exercícios espirituais (orações, preces, meditação) e de um estilo de vida praticados com regularidade. O auge da experiência religiosa consiste em alcançar um estado de reverência, mesmo sabendo que Deus não pode ser traduzido racionalmente. Foi o que sempre fizeram, como mostra The case for God, as grandes tradições monoteístas. Pelo menos até que a ciência as virasse do avesso, ao exigir-lhes comprovações científicas estranhas a sua essência.

Karen ilustra essa busca incessante pelo sagrado, inerente aos humanos, com uma história. Entre os muitos judeus que perderam sua fé em Auschwitz, um grupo decidiu levar Deus a julgamento. “Como pode, afinal, uma divindade onisciente e tão benevolente permitir tamanho horror? Ou ela não existe ou não merece nossa devoção”, eles argumentavam. Após longos debates, Deus foi condenado à morte. O rabino que presidia o júri proclamou então o veredicto: “Deus está morto”. Depois, calmamente, disse: “Agora vamos, pois está na hora da oração noturna”.

O livro de Karen traz um novo alento aos que creem. Desperta um renovado e sereno otimismo espiritual. Resgata a relevância que a modernidade roubou às religiões e enfatiza a importância de compreendê-las se quisermos compreender verdadeiramente nossa vida e o mundo em que vivemos. Ao longo de seus capítulos, Karen analisa questões atualíssimas, como a origem da fé, o secularismo, a violência religiosa e o tratamento nada lisonjeiro dispensado pelas religiões às mulheres. Tais temas, selecionados, são debatidos nas próximas páginas. The case for God é um trabalho denso, corajoso e sincero. Se venderá mais ou menos que as obras de Dawkins, Hitchens, Harris ou Dennett é algo que, decerto, dirá menos sobre o próprio livro e mais sobre nós mesmos e o nosso tempo.

José Ruy Gandra

Época - Ed. 605 (19-12-2009)

http://revistaepoca.globo.com

A guerra no Iraque não foi por petróleo

Se a intervenção no Iraque tivesse sido mesmo uma “guerra pelo petróleo”, então algumas das consequências mais positivas do conflito teriam sido vistas em Bagdá na semana passada. O ministro do Petróleo do país, Hussain al-Shahristani, presidiu um leilão em que os direitos de exploração para sete importantes campos de petróleo foram concedidos em uma disputa de ofertas entre vários consórcios internacionais. Três aspectos do resultado são dignos de nota.

O leilão foi para conceder contratos de serviço, e não acordos de divisão da produção que as principais empresas preferem. O preço foi fixado entre US$ 1,15 e US$ 1,90 por barril, em comparação aos US$ 4 propostos pelas companhias. E as corporações americanas, no geral, não foram as grandes vencedoras; consórcios ligados a Malásia, Rússia e até Angola se saíram melhor (a Exxon Mobil e a Occidental, em negociações prévias, tinham obtido contratos em outros campos de petróleo iraquianos).

Assim, a parte vulgar e histérica da interpretação da “guerra pelo petróleo” foi desmentida: o Iraque mantém sua autonomia, a parcela concedida a estrangeiros na exploração está longe de ser exorbitante e não há uma correlação real entre os interesses dos Estados Unidos e o resultado. Exceto pelo fato de que os americanos realmente têm interesse no sucesso desse setor.

Se a recuperação dos campos de petróleo do Iraque persistir, o país vai começar a readquirir o que foi perdido sob o regime de Saddam Hussein, que degradou a infraestrutura petrolífera e dissipou seus ganhos. A produção atual é de cerca de 2,5 milhões de barris por dia. Pelas atuais projeções, poderia subir para 7 milhões em um período relativamente curto. Otimista, Shahristani acredita que poderia subir para 12 milhões de barris diários até 2016. O potencial para essa recuperação existe. O país tem a terceira maior reserva confirmada do mundo, com 115 bilhões de barris, e esse número pode estar subestimado. O Iraque, então, poderia rivalizar com a produção da Arábia Saudita e do Irã bem rapidamente. É o que muitos a favor da mudança do regime sonham: um Iraque democrático e federalista situado entre duas teocracias parasitárias e capaz de desafiar o duopólio do petróleo.

Com isso em mente, duas outras coisas se tornam mais fáceis de compreender. A crueldade da chamada “insurgência”, que diariamente mata iraquianos nas áreas do país sem proteção americana, representa, em grande medida, um movimento mercenário financiado de fora do país. Os assassinos sunitas da Al Qaeda na Mesopotâmia vivem de fontes de financiamento na Arábia Saudita, ao passo que as gangues xiitas são parte de uma sombra da Guarda Revolucionária iraniana. São eles que derramam sangue por petróleo para impedir a recuperação de um país que poderia desafiar seus patronos. O regime sírio, pelos mesmos motivos, dá armas, dinheiro e refúgio para os rebeldes.

É muito mais importante ajudar o Iraque a derrotar esses criminosos do que fingir que o Paquistão é amigo em uma área dominada por pedras, desfiladeiros e campos de papoula. Há dois anos, o Iraque estaria condenado a uma guerra civil. Apesar de represálias estarrecedoras, isso ainda não se concretizou. Na última vez que estive em Bagdá, fiquei na casa de um membro do governo curdo. “Agora sou do comitê do orçamento”, disse-me ele, “e vejo como este país pode ser rico.”

As discussões sobre a mudança de regime no Iraque ainda se atolam em recriminações sobre as armas de destruição em massa e outras controvérsias. Mas a escolha essencial é, e sempre foi, esta: ou o país terá um futuro de tribalismo, em que suas crianças deixam a escola para montar guarda sobre barricadas feitas de pneus em chamas, ou a nacionalidade do Iraque pode ser reconstruída por uma ordem federal que permita uma grande descentralização e a solução das diferenças por meio de eleições e tribunais. É a melhor oferta aos iraquianos, temida pelas oligarquias decrépitas que vivem ali. Por isso vale a pena lutar.

CHRISTOPHER HITCHENS, escritor, colunista da revista Vanity Fair, autor e colaborador regular do New York Times e The New York Review of Books. Escreve quinzenalmente em ÉPOCA.

Época - Ed. 605 (19-12-2009)

http://revistaepoca.globo.com

El Islam en una sociedad libre



Hina tenía 20 años. Se ganaba la vida en una pizzería, fumaba, lucía un pequeño tatuaje y vestía como las chicas de su edad: pantalones de tiro bajo y ombligo al aire. A mediados de agosto de 2006 fue degollada por su padre, un paquistaní que había llegado a Italia diez años antes. Amparado por la comunidad musulmana, enterró el cadáver en el patio de su casa de las afueras de Brescia, con la cabeza hacia la Meca. Hina fue asesinada porque vivía demasiado «a la occidental» y, enamorada de un joven italiano, rechazaba el matrimonio de conveniencia que su familia había cerrado en Paquistán.

Mejor suerte corrió la mujer de Reus que hace semanas escapó milagrosamente de sus captores salafistas. Acusada de haberse enamorado del hombre equivocado, había sido «juzgada» bajo la implacable ley del Corán y condenada a muerte. El imperio de la sharia, tal y como se aplica en Somalia o Afganistán, mostraba por primera vez su abominable rostro en esta España liderada por quienes les produce urticaria la existencia de verdades absolutas, valores innegociables y principios universales. Apóstoles del multiculturalismo, esa nueva bandera de la izquierda relativista que sostiene que toda cultura debe ser respetada, por muy ofensiva que sea para los que no pertenecen a ella. El desafío ya está aquí. La incorporación a nuestras sociedades libres de una cultura de aliento religioso que no se conforma con la sumisión voluntaria o impuesta de sus fieles y no renuncia a una aplicación integrista allí donde se expande gracias a la inmigración creciente, va a poner a prueba los cimientos de la civilización occidental, la solidez de nuestros valores, la convicción en la defensa de los mismos y los límites de las sociedades abiertas.

El pluralismo, la tolerancia, la diversidad y el respeto a las minorías son piezas indispensables de la democracia liberal. ¿Pero son infinitamente elásticas? ¿Cuán abierta puede ser una sociedad abierta para seguir siéndolo? Giovanni Sartori, el gran teórico de la democracia, establece tres criterios básicos para la convivencia en la diversidad: «El primero es la negación del dogmatismo, es decir, precisamente todo lo contrario que predica el Islam. Cualquier cosa que uno haga tiene que ser explicado por argumentos racionales. No vale eso de que Dios lo dice. El segundo es que ninguna sociedad puede dejar de imponer el principio de impedir el daño y esto supone que todas nuestras libertades siempre acaban donde supondrían un daño o peligro de daño al prójimo. Y el tercero es el de la reciprocidad: no podemos ser tolerantes con la intolerancia. Si entras en un país que no es el tuyo y te beneficias de ello, considerando que no se te ha obligado a acudir a él, entonces debes atenerte a los valores básicos de la sociedad que te acoge. Si no lo aceptas, no es que yo te vaya a echar, pero no debe hacerte ciudadano con los mismos derechos de un país cuyas reglas no aceptas».

La religión católica fue durante mucho tiempo muy intolerante. Hoy no se lo puede permitir, aunque muchas veces quisiera. Ya ha perdido para siempre la ocasión de serlo. Pero el Islam sigue pensando en el poder de la espada. Lo sorprendente es que quienes tratan de imponer un laicismo visceral y no pasan una a la iglesia de Roma, sean los más condescendientes con un credo que combate como infieles a quienes no aceptan sus preceptos.

A la Iglesia católica no le gusta perder fieles cada domingo, pero se tiene que aguantar. Sabe que o convence con la palabra y con ejemplos de vida, o sus parroquias seguirán vaciándose. El Islam no se lo permite, ni siquiera con quienes desde hace años viven en un Occidente que entregó la sangre de muchas generaciones en la conquista del respeto a la libertad de creer o no, y a no ser perseguido por lo uno o lo otro. Hina fue asesinada por el delito de vestir vaqueros y enamorarse de un joven italiano. Theo Van Gogh, por la osadía de plasmar en una película el sometimiento de la mujer en el Islam. Hirsi Ali tuvo que emigrar de Holanda porque un juez amparó la cobardía moral de sus vecinos: temían por su seguridad al haberse convertido la diputada somalí en un objetivo de los islamistas por su rebeldía contra el matrimonio forzoso, la ablación del clítoris o la obligación de rezar cada noche por el exterminio de los judíos.

Cegada por su antiliberalismo congénito, la izquierda mundial lleva años haciendo malabarismos intelectuales para buscar excusas al totalitarismo islamista. El semanario «Charlie-Hebo», juzgado en Francia por la publicación de las caricaturas de Mahoma, situó el debate en su justo término: «No se trata de un choque de civilizaciones o de un antagonismo Occidente-Oriente, sino de una lucha global entre demócratas y teócratas». Quizá así se entienda el grito que los suizos, tan pacíficos y neutrales siempre, han lanzado y que ahora resuena en todos los rincones de esta vieja y cansada Europa.

Agustín de Grado
Director de Informativos de Telemadrid

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