domingo, 30 de setembro de 2007

Aquecimento global poderia ser controlado através da teoria do caos

A maioria dos fenômenos naturais responde a um modelo de sistemas caóticos que poderiam ser controláveis, como, por exemplo, o aquecimento global, segundo o brasileiro Jacob Palis, um dos matemáticos mais relevantes na investigação do comportamento caótico.

O cientista, que deu uma conferência na inauguração do Instituto Madrileño de Estudios Avanzados en Matemática, disse que, embora existam na natureza fenômenos "regulares" ou perfeitamente previsíveis, a imensa maioria tem um comportamento caótico.

- Os exemplos na natureza são múltiplos, como a meteorologia, o movimento dos astros, a expansão de epidemias ou a evolução dos fluxos migratórios - acrescentou.
A teoria do caos, postulada pelo matemático Henri Poincaré no século XIX e cuja formulação moderna data de 1990, sugere que a evolução destes sistemas depende, em grande medida, das condições "de partida", de modo que uma pequena mudança pode fazer com que o sistema evolua de maneira distinta.

Palis afirmou que é muito comum pensar que, no "caos", existe um descontrole total, mas a maior parte destes fenômenos poderia ser previsível, desde que sua situação inicial fosse conhecida. Assim, seria possível controlar o desenvolvimento do processo em direção a um ponto determinado se suas condições fossem alteradas.

No entanto, é impossível ter todos os fatores sob controle em um sistema caótico, fato com o qual os humanos devem se acostumar, já que "a incerteza é muito comum em nossas vidas", disse.

Palis lembrou as palavras de Galileu de que "os fenômenos da natureza estão escritos em linguagem matemática", contrariando o senso comum de que a matemática não serve para nada.

Agência EFE - Madrid

http://www.imdea.org

Calvin & Haroldo


Calvin & Hobbes (Bill Waterson)

sábado, 29 de setembro de 2007

O DIPLOMÁTICO de Machado de Assis

A preta entrou na sala de jantar, chegou-se à mesa rodeada de gente, e falou baixinho à senhora. Parece que lhe pedia alguma cousa urgente, porque a senhora levantou-se logo.

- Ficamos esperando, D. Adelaide?

- Não espere, não, Sr. Rangel; vá continuando, eu entro depois. Rangel era o leitor do livro de sortes. Voltou a página, e recitou um título: "Se alguém lhe ama em segredo." Movimento geral: moças e rapazes sorriram uns para os outros. Estamos na noite de S. João de 1854, e a casa é na Rua das Mangueiras. Chama-se João o dono da casa, João Viegas, e tem uma filha, joaninha. Usa-se todos os anos a mesma reunião de parentes e amigos, arde uma fogueira no quintal, assam-se as batatas do costume, e tiram-se sortes. Também há ceia, às vezes dança, e algum jogo de prendas, tudo familiar. João Viegas é escrivão de uma vara cível da corte.

- Vamos. Quem começa agora? disse ele. Há de ser D. Felismina. Vamos ver se alguém lhe ama em segredo.

D. Felismina sorriu amarelo. Era uma boa quarentona, sem prendas nem rendas, que vivia espiando um marido por baixo das pálpebras devotas. Em verdade, o gracejo era duro, mas natural. D. Felismina era o modelo acabado daquelas criaturas indulgentes e mansas, que parecem ter nascido para divertir os outros. Pegou e lançou os dados com um ar de complacência incrédula. Número dez, bradaram duas vozes. Rangel desceu os olhos ao baixo da página, viu a quadra correspondente ao número, e leu-a: dizia que sim, que havia uma pessoa, que ela devia procurar domingo, na igreja, quando fosse à missa. Toda a mesa deu parabéns a D. Felismina que sorriu com desdém, mas interiormente esperançada.

Outros pegaram nos dados, e Rangel continuou a ler a sorte de cada um. Lia espevitadamente. De quando em quando, tirava os óculos e limpava-os com muito vagar na ponta do lenço de cambraia, - ou por ser cambraia, - ou por exalar um fino cheiro de bogari. Presumia de grande maneira, e ali chamavam-lhe "o diplomático".

- Ande, seu diplomático, continue.

Rangel estremeceu; esquecera-se de ler uma sorte, embebido em percorrer a fila de moças que ficava do outro lado da mesa. Namorava alguma? Vamos por partes.

Era solteiro, por obra das circunstâncias, não de vocação. Em rapaz teve alguns namoricos de esquina, mas com o tempo apareceu-lhe a comichão das grandezas, e foi isto que lhe prolongou o celibato até os quarenta e um anos, em que o vemos. Cobiçava alguma noiva superior a ele e à roda em que vivia, e gastou o tempo em esperá-la. Chegou a freqüentar os bailes de um advogado célebre e rico, para quem copiava papéis, e que o protegia muito. Tinha nos bailes a mesma posição subalterna do escritório; passava a noite vagando pelos corredores, espiando o salão, vendo passar as senhoras, devorando com os olhos uma multidão de espáduas magníficas e talhes graciosos. Invejava os homens, e copiava-os. Saía dali excitado e resoluto. Em falta de bailes, ia às festas de igreja, onde poderia ver algumas das primeiras moças da cidade. Também era certo no saguão do paço imperial, em dia de cortejo, para ver entrar as grandes damas e as pessoas da corte, ministros, generais, diplomatas, desembargadores, e conhecia tudo e todos, pessoas e carruagens. Voltava da festa e do cortejo, como voltava do baile, impetuoso, ardente, capaz de arrebatar de um lance a palma da fortuna.

O pior é que entre a espiga e a mão, há o tal muro do poeta, e o Rangel não era homem de saltar muros. De imaginação fazia tudo, raptava mulheres e destruía cidades. Mais de uma vez foi, consigo mesmo, ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e decretos. Chegou ao extremo de aclamar-se imperador, um dia, 2 de dezembro, ao voltar da parada no Largo do Paço; imaginou para isso uma revolução, em que derramou algum sangue, pouco, e uma ditadura benéfica, em que apenas vingou alguns pequenos desgostos de escrevente. Cá fora, porém, todas as suas proezas eram fábulas. Na realidade, era pacato e discreto.

Aos quarenta anos desenganou-se das ambições; mas a índole ficou a mesma, e, não obstante a vocação conjugal, não achou noiva. Mais de uma o aceitaria com muito prazer; ele perdia-as todas à força de circunspecção. Um dia, reparou em Joaninha, que chegava aos dezenove anos e possuía um par de olhos lindos e sossegados, - virgens de toda a conversação masculina. Rangel conhecia-a desde criança, andara com ela ao colo, no Passeio Público, ou nas noites de fogo da Lapa; como falar-lhe de amor? Mas, por outro lado, as relações dele na casa eram tais, que podiam facilitar-lhe o casamento; e, ou este ou nenhum outro.

Desta vez, o muro não era alto, e a espiga era baixinha; bastava esticar o braço com algum esforço, para arrancá-la do pé. Rangel andava neste trabalho desde alguns meses. Não esticava o braço, sem espiar primeiro para todos os lados, a ver se vinha alguém, e, se vinha alguém, disfarçava e ia-se embora. Quando chegava a esticá-lo, acontecia que uma lufada de vento meneava a espiga ou algum passarinho andava ali nas folhas secas, e não era preciso mais para que ele recolhesse a mão. Ia-se assim o tempo, e a paixão entranhava-se-lhe, causa de muitas horas de angústia, a que seguiam sempre melhores esperanças. Agora mesmo traz ele a primeira carta de amor, disposto a entregá-la. Já teve duas ou três ocasiões boas, mas vai sempre espaçando; a noite é tão comprida! Entretanto, continua a ler as sortes, com a solenidade de um ángur.

Tudo, em volta, é alegre. Cochicham ou riem, ou falam ao mesmo tempo. O tio Rufino, que é o gaiato da família, anda à roda da mesa com uma pena, fazendo cócegas nas orelhas das moças. João Viegas está ansioso por um amigo, que se demora, o Calisto. Onde se meteria o Calisto?

- Rua, rua, preciso da mesa; vamos para a sala de visitas.

Era D. Adelaide que tornava; ia pôr-se a mesa para a ceia. Toda a gente emigrou, e andando é que se podia ver bem como era graciosa a filha do escrivão. Rangel acompanhou-a com grandes olhos namorados. Ela foi à janela, por alguns instantes, enquanto se preparava um jogo de prendas, e ele foi também; era a ocasião de entregar-lhe a carta. Defronte, numa casa grande, havia um baile, e dançava-se. Ela olhava, ele olhou também. Pelas janelas viam passar os pares, cadenciados, as senhoras com as suas sedas e rendas, os cavalheiros finos e elegantes, alguns condecorados. De quando em quando, uma faísca de diamantes, rápida, fugitiva, no giro da dança. Pares que conversavam, dragonas que reluziam, bustos de homens inclinados, gestos de leque, tudo isso em pedaços, através das janelas, que não podiam mostrar todo o salão, mas adivinhava-se o resto. Ele ao menos, conhecia tudo, e dizia tudo à filha do escrivão. O demônio das grandezas, que parecia dormir, entrou a fazer as suas arlequinadas no coração do nosso homem, e ei-lo que tenta seduzir também o coração da outra.

- Conheço uma pessoa que estaria ali muito bem, murmurou o Rangel.

E Joaninha, com ingenuidade:

- Era o senhor.

Rangel sorriu lisonjeado, e não achou que dizer. Olhou para os lacaios e cocheiros, de libré, na rua, conversando em grupos ou reclinados no tejadilho dos carros. Começou a designar carros: este é do Olinda, aquele é do Maranguape; mas aí vem outro, rodando, do lado da Rua da Lapa, e entra na Rua das Mangueiras. Parou defronte: salta o lacaio, abre a portinhola, tira o chapéu e perfila-se. Sai de dentro uma calva, uma cabeça, um homem, duas comendas, depois uma senhora ricamente vestida; entram no saguão, e sobem a escadaria, forrada de tapete e ornada embaixo com dous grandes vasos.

- Joaninha, Sr. Rangel...

Maldito jogo de prendas! Justamente quando ele formulava, na cabeça, uma insinuação a propósito do casal que subia, e ia assim passar naturalmente à entrega da carta... Rangel obedeceu, e sentou-se defronte da moça. D. Adelaide, que dirigia o jogo de prendas, recolhia os nomes; cada pessoa devia ser uma flor. Está claro que o tio Rufino, sempre gaiato, escolheu para si a flor da abóbora. Quanto ao Rangel, querendo fugir ao trivial, comparou mentalmente as flores, e quando a dona da casa lhe perguntou pela dele, respondeu com doçura e pausa:

- Maravilha, minha senhora.

- O pior é não estar cá o Calisto! suspirou o escrivão.

- Ele disse mesmo que vinha?

- Disse; ainda ontem foi ao cartório, de propósito, avisar-me de que viria tarde, mas que contasse com ele; tinha de ir a uma brincadeira na Rua da Carioca...

- Licença para dous! bradou urna voz no corredor.

- Ora graças! está aí o homem!

João Viegas foi abrir a porta; era o Calisto, acompanhado de um rapaz estranho, que ele apresentou a todos em geral : - "Queirós, empregado na Santa Casa; não é meu parente, apesar de se parecer muito comigo; quem vê um, vê outro..." Toda a gente riu; era uma pilhéria do Calisto, feio como o diabo, - ao passo que o Queirós era um bonito rapaz de vinte e seis a vinte e sete anos, cabelo negro, olhos negros e singularmente esbelto. As moças retraíram-se um pouco; D. Felismina abriu todas as velas.

- Estávamos jogando prendas, os senhores podem entrar também, disse a dona da casa. Joga, Sr. Queirós?

Queirós respondeu afirmativamente e passou a examinar as outras pessoas. Conhecia algumas, e trocou duas ou três palavras com elas. Ao João Viegas disse que desde muito tempo desejava conhecê-lo, por causa de um favor que o pai lhe deveu outrora, negócio de foro. João Viegas não se lembrava de nada, nem ainda depois que ele lhe disse o que era; mas gostou de ouvir a notícia, em público, olhou para todos, e durante alguns minutos regalou-se calado.

Queirós entrou em cheio no jogo. No fim de meia hora, estava familiar da casa. Todo ele era ação, falava com desembaraço, tinha os gestos naturais e espontâneos. Possuía um vasto repertório de castigos para jogo de prendas, cousa que encantou a toda a sociedade, e ninguém os dirigia melhor, com tanto movimento e animação, indo de um lado para outro, concertando os grupos, puxando cadeiras, falando às moças, como se houvesse brincado com elas em criança.

- D. Joaninha aqui, nesta cadeira; D. Cesária, deste lado, em pé, e o Sr. Camilo entra por aquela porta... Assim, não: olhe, assim de maneira que...

Teso na cadeira, o Rangel estava atônito. Donde vinha esse furacão? E o furacão ia soprando, levando os chapéus dos homens, e despenteando as moças, que riam de contentes: Queirós daqui, Queirós dali, Queirós de todos os lados. Rangel passou da estupefação à mortificação. Era o cetro que lhe caía das mãos. Não olhava para o outro, não se ria do que ele dizia, e respondia-lhe seco. Interiormente, mordia-se e mandava-o ao diabo, chamava-o bobo alegre, que fazia rir e agradava, porque nas noites de festa tudo é festa. Mas, repetindo essas e piores causas, não chegava a reaver a liberdade de espírito. Padecia deveras, no mais íntimo do amor-próprio; e o pior é que o outro percebeu toda essa agitação, e o péssimo é que ele percebeu que era percebido.

Rangel, assim como sonhava os bens, assim também as vinganças. De cabeça, espatifou o Queirós; depois cogitou a possibilidade de um desastre qualquer, uma dor bastava, mas cousa forte, que levasse dali aquele intruso. Nenhuma dor, nada; o diabo parecia cada vez mais lépido, e toda a sala fascinada por ele. A própria Joaninha, tão acanhada, vibrava nas mãos de Queirós, como as outras moças; e todos, homens e mulheres, pareciam empenhados em servi-lo. Tendo ele falado em dançar, as moças foram ter com o tio Rufino, e pediram-lhe que tocasse uma quadrilha na flauta, uma só, não se lhe pedia mais.

- Não posso, dói-me um calo.

- Flauta? bradou o Calisto. Peçam ao Queirós que nos toque alguma cousa, e verão o que é flauta... Vai buscar a flauta, Rufino. Ouçam o Queirós. Não imaginam como ele é saudoso na flauta!

Queirós tocou a Casta Diva. Que cousa ridícula! dizia consigo o Rangel; - uma música que até os moleques assobiam na rua. Olhava para ele, de revés, para considerar se aquilo era posição de homem sério; e concluía que a flauta era um instrumento grotesco. Olhou também para Joaninha, e viu que, como todas as outras pessoas, tinha a atenção no Queirós, embebida, namorada dos sons da música, e estremeceu, sem saber porquê. Os demais semblantes mostravam a mesma expressão dela, e, contudo, sentiu alguma cousa que lhe complicou a aversão ao intruso. Quando a flauta acabou, Joaninha aplaudiu menos que os outros, e Rangel entrou em dúvida se era o habitual acanhamento, se alguma especial comoção... Urgia entregar-lhe a carta.

Chegou a ceia. Toda a gente entrou confusamente na sala, e felizmente para o Rangel, coube-lhe ficar defronte de Joaninha, cujos olhos estavam mais belos que nunca e tão derramados, que não pareciam os do costume. Rangel saboreou-os caladamente, e reconstruiu todo o seu sonho que o diabo do Queirós abalara com um piparote. Foi assim que tornou a ver-se, ao lado dela, na casa que ia alugar, berço de noivos, que ele enfeitou com os louros da imaginação. Chegou a tirar um prêmio na loteria e a empregá-lo todo em sedas e jóias para a mulher, a linda Joaninha, - Joaninha Rangel, - D. Joaninha Rangel, - D. Joana Viegas Rangel, - ou D. Joana Cândida Viegas Rangel... Não podia tirar o Cândida...

- Vamos, uma saúde, seu diplomático... faça uma saúde daquelas...

Rangel acordou; a mesa inteira repetia a lembrança do tio Rufino; a própria Joaninha pedia-lhe uma saúde, como a do ano passado. Rangel respondeu que ia obedecer; era só acabar aquela asa de galinha. Movimento, cochichos de louvor; D. Adelaide, dizendo-lhe uma moça que nunca ouvira falar o Rangel:

- Não? perguntou com pasmo. Não imagina; fala muito bem, muito explicado, palavras escolhidas, e uns bonitos modos...

Comendo, ia ele dando rebate a algumas reminiscências, frangalhos de idéias, que lhe serviam para o arranjo das frases e metáforas. Acabou e pôs-se de pé. Tinha o ar satisfeito e cheio de si. Afinal, vinham bater-lhe à porta. Cessara a farandulagem das anedotas, das pilhérias sem alma, e vinham ter com ele para ouvir alguma cousa correta e grave. Olhou em derredor, viu todos os olhos levantados, esperando. Todos não; os de Joaninha enviesavam-se na direção do Queirós, e os deste vinham esperá-los a meio caminho, numa cavalgada de promessas. Rangel empalideceu. A palavra morreu-lhe na garganta; mas era preciso falar, esperavam por ele, com simpatia, em silêncio.

Obedeceu mal. Era justamente um brinde ao dono da casa e à filha. Chamava a esta um pensamento de Deus, transportado da imortalidade à realidade, frase que empregara três anos antes, e devia estar esquecida. Falava também do santuário da família, do altar da amizade, e da gratidão, que é a flor dos corações puros. Onde não havia sentido, a frase era mais especiosa ou retumbante. Ao todo, um brinde de dez minutos bem puxados, que ele despachou em cinco, e sentou-se.

Não era tudo. Queirós levantou-se logo, dous ou três minutos depois para outro brinde, e o silêncio foi ainda mais pronto e completo. Joaninha meteu os olhos no regaço, vexada do que ele iria dizer; Rangel teve um arrepio.

- O ilustre amigo desta casa, o Sr. Rangel, - disse Queirós, - bebeu às duas pessoas cujo nome é o do santo de hoje; eu bebo àquela que é a santa de todos os dias, a D. Adelaide.

Grandes aplausos aclamaram esta lembrança, e D. Adelaide, lisonjeada, recebeu os cumprimentos de cada conviva. A filha não ficou em cumprimentos. - Mamãe! mamãe! exclamou, levantando-se; e foi abraçá-la e beijá-la três e quatro vezes; - espécie de carta para ser lida por duas pessoas.

Rangel passou da cólera ao desânimo, e, acabada a ceia, pensou em retirar-se. Mas a esperança, demônio de olhos verdes, pediu-lhe que ficasse, e ficou. Quem sabe? Era tudo passageiro, causas de uma noite, namoro de S. João; afinal, ele era amigo da casa, e tinha a estima da família; bastava que pedisse a moça, para obtê-la. E depois esse Queirós podia não ter meios de casar. Que emprego era o dele na Santa Casa? Talvez alguma cousa reles... Nisto, olhou obliquamente para a roupa de Queirós, enfiou-se-lhe pelas costuras, escrutou o bordadinho da camisa, apalpou os joelhos das calças, a ver-lhe o uso, e os sapatos, e concluiu que era um rapaz caprichoso, mas provavelmente gastava tudo consigo, e casar era negócio sério. Podia ser também que tivesse mãe viúva, irmãs solteiras... Rangel era só.

- Tio Rufino, toque uma quadrilha.

- Não posso; flauta depois de comer faz indigestão. Vamos a um víspora.

Rangel declarou que não podia jogar, estava com dor de cabeça; mas Joaninha veio a ele e pediu-lhe que jogasse com ela, de sociedade. - "Meia coleção para o senhor, e meia para mim", disse ela, sorrindo; ele sorriu também e aceitou. Sentaram-se ao pé um do outro. Joaninha falava-lhe, ria, levantava para ele os belos olhos, inquieta, mexendo muito a cabeça para todos os lados. Rangel sentiu-se melhor, e não tardou que se sentisse inteiramente bem. Ia marcando à toa, esquecendo alguns números, que ela lhe apontava com o dedo, - um dedo de ninfa, dizia ele consigo; e os descuidos passaram a ser de propósito, para ver o dedo da moça, e ouvi-la ralhar: "O senhor é muito esquecido; olhe que assim perdemos o nosso dinheiro..."

Rangel pensou em entregar-lhe a carta por baixo da mesa; mas não estando declarados, era natural que ela a recebesse com espanto e estragasse tudo; cumpria avisá-la. Olhou em volta da mesa: todos os rostos estavam inclinados sobre os cartões, seguindo atentamente os números. Então, ele inclinou-se à direita, e baixou os olhos aos cartões de Joaninha, como para verificar alguma coisa.

- Já tem duas quadras, cochichou ele.

- Duas, não; tenho três.

- Três, é verdade, três. Escute...

- E o senhor?

- Eu duas.

- Que duas o quê? São quatro.

Eram quatro; ela mostrou-lhas inclinada, roçando quase a orelha pelos lábios dele; depois, fitou-o rindo e abanando a cabeça: "O senhor! o senhor!" Rangel ouviu isto com singular deleite; a voz era tão doce, e a expressão tão amiga, que ele esqueceu tudo, agarrou-a pela cintura, e lançou-se com ela na eterna valsa das quimeras. Casa, mesa, convivas, tudo desapareceu, como obra vã da imaginação, para só ficar a realidade única, ele e ela, girando no espaço, debaixo de um milhão de estrelas, acesas de propósito para alumiá-los.

Nem carta, nem nada. Perto da manhã foram todos para a janela ver sair os convidados do baile fronteira. Rangel recuou espantado. Viu um aperto de dedos entre o Queirós e a bela Joaninha. Quis explicá-lo, eram aparências, mas tão depressa destruía uma como vinham outras e outras, à maneira das ondas que não acabam mais. Custava-lhe entender que uma só noite, algumas horas bastassem a ligar assim duas criaturas; mas era a verdade clara e viva dos modos de ambos, dos olhos, das palavras, dos risos, e até da saudade com que se despediram de manhã.

Saiu tonto. Uma só noite, algumas horas apenas! Em casa, aonde chegou tarde, deitou-se na cama, não para dormir, mas para romper em soluços. Só consigo, foi-se-lhe o aparelho da afetação, e já não era o diplomático, era o energúmeno, que rolava na cama, bradando, chorando como uma criança, infeliz deveras, por esse triste amor do outono. O pobre-diabo, feito de devaneio, indolência e afetação, era, em substância, tão desgraçado como Otelo, e teve um desfecho mais cruel.

Otelo mata Desdêmona; o nosso namorado, em quem ninguém pressentira nunca a paixão encoberta, serviu de testemunha ao Queirós, quando este se casou com Joaninha, seis meses depois.

Nem os acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a índole. Quando rompeu a guerra do Paraguai, teve idéia muitas vezes de alistar-se como oficial de voluntários; não o fez nunca; mas é certo que ganhou algumas batalhas e acabou brigadeiro.
Conto publicado originalmente em Gazeta de Notícias, 1884

Joaquim Barbosa para presidente?

Um ex-faxineiro culto e negro substituiria, no Planalto, um ex-torneiro mecânico branco que não estudou
Esta não é uma campanha para eleger o ministro do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa, presidente do Brasil em 2010. O juiz que se tornou o símbolo do combate à corrupção e à impunidade teria primeiro de se filiar a um partido. Precisaria também desejar muito ser presidente da República. Teria de achar que serviria melhor ao país e à Justiça se renunciasse ao Supremo. Sabe-se apenas que Joaquim Barbosa foi eleitor de Lula, e que o PT não tem candidato à sucessão. Tudo isso não passa, claro, de especulação – uma heresia para os políticos profissionais encarapitados em suas mordomias e alianças em Brasília, à espera de uma brecha para subir ao pódio. Como assim? Um juiz para presidente? Seria uma piada, uma advertência ou a única saída? Colocar no Planalto, pelo voto, alguém com absoluta integridade, sem espírito corporativo nem vícios políticos e aparentemente sem chance de se deslumbrar com o poder. Um homem que, como nosso atual presidente, veio de baixo, mas domina vários idiomas, além do nosso, o português. O presidente do Supremo, mineiro discreto, informal e refinado, mistura gostos populares a clássicos e é um cidadão do mundo. Joaquim Barbosa dificilmente cometeria gafes em viagens presidenciais. O ministro joga muito bem como meia-atacante, mas é improvável que recorresse a comparações futebolísticas para explanar um raciocínio. Ninguém ouviria Joaquim Barbosa deblaterar contra a elite intelectual. Ele é parte dela. Fez doutorado na França e escreveu livro em francês, depois de estudar Direito nos Estados Unidos. Caso esse exercício de fantasia se tornasse verdade, um ex-faxineiro culto substituiria um ex-torneiro mecânico que não estudou. O Brasil fez história elegendo um operário para presidente. Com Joaquim Barbosa, teria seu primeiro presidente negro, que chegou aonde chegou sem o privilégio de nenhuma cota racial. O ministro costuma dizer: “Sempre tive um norte: preciso estudar”. Eis aí um recado bem claro de qual seria a prioridade de Joaquim Barbosa presidente.
Uma incógnita: como alguém que sempre trabalhou e estudou, que virava noites em busca de aprimoramento, conviveria com um Congresso que trabalha quatro dias por semana? Como um juiz tão rigoroso e cosmopolita enxergaria congressistas que se esmeram em ser provincianos e menosprezam o próprio mandato?

Ao absolver Renan Calheiros em tenebrosas transações, o Senado contribuiu para distanciar ainda mais a classe política da população. Mas há um lado positivo. Ao aumentar a desilusão do povo com seus governantes, o Senado, de maneira torta, reforçou a importância da eleição presidencial em 2010. Muitos eleitores expressam, em e-mails, o desejo de nunca mais votar em ninguém. Mas um número maior de eleitores vem dizendo, nas ruas, em festas, em jantares e em família, que só um homem tem hoje, no país, o estofo e a ética necessários para curar a ressaca cívica nacional: Joaquim Barbosa. Para 2010.
Ruth de Aquino - redatora-chefe de ÉPOCA
Época, 24/09/2007, nº488

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Arianna in Creta, ópera de Händel, estréia no Brasil


Resumo da ópera:
Teseo, Príncipe de Atenas, que ama Arianna, chega a Creta com o seu tributo anual: sete jovens homens e sete damas virgens, que serão devorados pelo Minotauro. Carilda, amiga de Arianna, está no meio das virgens. Teseo se oferece para lutar contra o Minotauro, salvar Carilda e livrar Atenas da obrigação sangrenta do tributo. Arianna descobre como Tauride, general de Creta, encarregado de levar as virgens ao Minotauro, consegue entrar no Labirinto do monstro e conta o segredo a Teseo quando este parte em sua missão.

Alceste, que ama Carilda, a convence de fugir com ele. O Rei Minos, pensando ser Arianna a responsável pela fuga da amiga, determina que ela seja sacrificada em seu lugar. Teseo, segue em sua missão pela pátria e por amor e consegue entrar no Labirinto, matar o Minotauro e salvar Arianna. É revelado ao Rei Minos, por Teseo, que sua filha desaparecida quando menina é Arianna. Pai e filha se reencontram e a ópera termina com a união de Carilda com Alceste e Arianna com Teseo.

http://www.haendel.it/composizioni/opere/arianna.htm

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Oração pela Paz (atribuída a São Francisco)

Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.
Onde há ódio, que eu leve o amor.
Onde há ofensa, que eu leve o perdão.
Onde há discórdia, que eu leve a união.
Onde há dúvida, que eu leve a fé.
Onde há erro, que eu leve a verdade.
Onde há desespero, que eu leve a esperança.
Onde há tristeza, que eu leve a alegria.
Onde há trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido;
amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
é morrendo que se vive para a vida eterna.

São Francisco

São Francisco recebendo os estigmas, 1577 - 1579, de El Greco - Walters Art Gallery, Baltimore - EUA

Nascido em Assis, no coração da Itália, nos últimos vinte anos do século XII (fim de 1181 - acredita-se no dia 26 de setembro - ou início de 1182), filho do rico proprietário e comerciante de tecidos Pedro de Bernardone e de Joana, chamada Pica, seu nome batismal - João - foi logo mudado para Francisco ("francês", nome já em uso, mas não muito difundido na Itália) pelo pai, ao voltar dos seus negócios na França. A mãe, muito piedosa, cuidou de sua primeira formação religiosa.
O Santo aprendeu a ler e escrever na escola paroquial de São Jorge, em Assis, e completou sua modesta cultura com elementos de cálculo, de poesia e música, adquirindo também uma escassa noção da língua francesa (provençal) bem como de contos e lendas de cavalaria. De gênio perspicaz e muito boa memória, Francisco adquirirá, mais tarde, uma discreta cultura religiosa, lendo e meditando. Filho de rica família burguesa, com um pai ambicioso, que pretendia alargar no exterior a área do seu comércio, o ambiente familiar de Francisco foi aquele típico da classe média da sociedade italiana da época, em escalada civil e política, ávida de bem-estar e liberdade, até a conquista de um título de nobreza para equiparar-se aos "maiores", que pairavam acima da massa dos pobres e "menores".

Francisco, largamente dotado de inteligência, ambicioso e ativo, no primeiro período de vinte e cinco anos de vida "no século" (1182-1207), tentou pessoalmente todas estas vias de subida e de glória mundana.

Associado, por volta dos 14 anos, ao trabalho paterno na artes dos mercadores (1196), exerceu com competência aquela arte, atento aos lucros, embora não fosse bom administrador destes. Com efeito, filho primogênito (com um só irmão menor, Ângelo), aclamado rei das festas e da juventude assisiense, gastava profusamente as riquezas paternas, vestindo roupas curiosas e vistosas, entretendo-se em noites de gala entre músicas e cantos. Tolerado com indulgência pelos pais naquelas despesas "principescas", era admirado especialmente pela mãe e pelos amigos por suas boas qualidades naturais e morais, nobreza de palavras e de trato, generosidade com os pobres e singular integridade dos costumes.

Vivaz observador, bem como participante da conquista da liberdade cívica na luta contra o feudatário imperial de Spoleto (1198), tomou parte ativa, aos vinte anos, na guerra comunal de Assis contra Perúgia (1202) e caiu prisioneiro dos peruginos. Libertado após um ano de prisão e provado por longa doença, o mundo começou a parecer-lhe diferente e estranho. Mas depois de certo tempo, restabelecido da doença e atraído por novos sonhos de glória, decidiu ir até as Apúlias para a conquista do título de cavaleiro (1205). A viagem de Francisco foi, contudo, interrompida em Spoleto, a sua "estrada de Damasco", onde o Senhor o convidava, em sonho, a entrar na companhia de um senhor mais nobre.

Voltando a Assis, com o presságio de "tornar-se um grande príncipe", afasta-se logo da companhia dos amigos, entretendo-se longamente em oração e lágrimas numa gruta solitária; depois de vencer sua extrema repugnância pela lepra, com um beijo num leproso, é atingido pela "iluminação" do Senhor na primeira aparição do Crucificado que lhe imprime no coração o amor e o pranto pela paixão. Francisco aplica-se assiduamente ao serviço dos leprosos, multiplicando as esmolas aos pobres, aos sacerdotes e às igrejas pobres. Pouco depois, em oração na igrejinha de São Damião, a voz do Crucificado, convida-o a "reparar a sua Igreja, que está em ruínas".

Revestido de uma pobre túnica, assinalada por uma cruz, e proclamando-se o "arauto do grande rei", ele passa um biênio de vida penitente e eremítica, entregue à oração e a serviços humildes, por breve tempo também, num mosteiro beneditino. Depois, interpretando literalmente o convite do Crucificado, empenha-se na restauração material de três igrejas de Assis: São Damião, São Pedro della Spina e Santa Maria dos Anjos, chamada Porciúncula.
À espera de nova iluminação divina, que veio logo depois da última restauração, quando escutou o Evangelho do envio e da pobreza dos Apóstolos, na igreja da Porciúncula (cerca de 24 de fevereiro de 1208), Francisco pediu explicação ao sacerdote a respeito do referido Evangelho e, nele reconheceu com alegria a própria vocação e missão (Mt 10; Lc 9,10).

Executando à letra aquelas disposições, vestiu-se de hábito minorítico: uma túnica em forma de cruz, um cordão branco, pés descalços e, certamente, com permissão do bispo, começou a pregar sobre paz e penitência, com grande fervor de espírito, na igreja de São Jorge.
Seguiram-no o rico Bernardo de Quintavalle e o doutor em Direito, Pedro Cattani, aos quais se juntaram o jovem Egídio e mais oito companheiros (1208). Um ano depois, o grupo foi aprovado em seu modo de vida comunitária e apostólica pelo Papa Inocêncio (1209). Era a Primeira Ordem, a "Ordem dos Menores". Instituiu também a Segunda (Damas Pobres de São Damião ou Clarissas) e a Terceira Ordem.

Já doente, o próprio Santo, após o retorno do Oriente, providenciou para a Ordem a direção ativa de um vigário, na pessoa de Frei Elias de Assis (1221-1227), e a Regra definitiva (1223). Encaminhava-se ao último período da sua vida, num crescendo de ascensões místicas e no desejo de mais íntima participação e conformidade com o Crucificado.

No verão de 1224, retirou-se para o Monte Alverne, onde, entre prolongadas orações, meditações e jejuns, apareceu-lhe o próprio Cristo Crucificado, na figura de um Serafim alado e flamejante, que lhe imprimiu na carne os estigmas vivos da paixão: feridas abertas e sangrentas, com pregos de longas pontas dobradas (constituídas pela própria carne) nas mãos e nos pés, além da chaga no peito.

Descendo do Monte Alverne, Francisco transcorreu seu último biênio de vida numa contínua paixão de doenças e dores, afligido por uma grave oftalmia contraída no Oriente. Entre o fim de 1224 e os primeiros dias de 1225, "certificado" pelo Senhor de sua morte próxima e do prêmio eterno, num ímpeto de exaltação mística pela obra da criação, ditou aos companheiros o "Cântico do irmão Sol e de todas as criaturas".

Na Porciúncula, meditando a narração joanina da Paixão e celebrando com seus religiosos a lembrança da última ceia do Senhor, invocando a "irmã morte" e cantando o Salmo "Em voz alta ao Senhor eu imploro... Muitos justos virão rodear-me pelo bem que fizeste por mim" expirou na tarde de Sábado de 03 de outubro de 1226, com a idade de 44 anos.

Sobre a terra nua, apresentando seus estigmas, vistos então por centenas de frades e leigos, "parecia um verdadeiro crucificado deposto na cruz" (Frei Leão em Salimbene).

No dia seguinte, Domingo, pela manhã, com solene procissão do clero e povo, seu corpo foi levado à igrejinha de São Jorge, dentro dos muros da cidade, ficando aí guardado por cerca de quatro anos, onde também o Santo foi canonizado, em 16 de Julho de 1228.

O corpo foi transladado depois (25.05.1230) para a nova Basílica de São Francisco, erguida por vontade de Gregório IX e por mérito de Frei Elias, sobre a colina do Paraíso.
(FRADES MENORES CONVENTUAIS. História e Vida: 1209-1995, p. 16-21).

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Águila del cielo


De piloto de caza a madre coraje: La historia de Caroline Aigle
Caroline Aigle hubiera cumplido 33 años de edad el último 12 de septiembre. La primera mujer piloto de caza de la Armada Francesa y futura astronauta murió el 21 de agosto víctima de un cáncer fulminante. Su país aún la llora y no deja de conmoverse por su valiente sacrificio: estaba embarazada de cinco meses cuando supo que padecía la enfermedad terminal y optó por postergar su tratamiento para que su hijo pudiera nacer.

A mediados de julio pasado, Caroline recibió la devastadora noticia. Lejos de derrumbarse, la mujer se enfrentó a la adversidad y no hizo caso a los médicos que le aconsejaron abortar para tratar de extender su vida.

Junto a su esposo, el también piloto Christophe Deketelaere, decidió darle una oportunidad al nuevo miembro de su familia. Su segundo hijo nació a inicios de agosto con solo cinco meses y medio de gestación, lo llamó Gabriel. Nació muy pequeño pero sigue luchando por su vida y tiene muchas posibilidades de salir adelante.

“No podía detener la vida de un ser que había llevado consigo por cinco meses. Me dijo: ‘Él tiene el derecho de tener posibilidades como yo’”, declaró Christophe a RTL.

Para su esposo, este embarazo fue “su último combate y lo ganó”. Antes de morir, pudo ver a su hijo varias veces y cargarlo en sus brazos. “Fue heroica hasta el final”, aseguró.

Caroline Aigle (que significa “águila”) nació en Montauban en 1974. A los 14 años de edad ingresó en la escuela militar de Saint-Cyr. En mayo de 1999 se convirtió en piloto de caza y estuvo a cargo de un Mirage 2000-5 del Escuadrón de Caza Cote d'Or en Dijon. En 2005 se convirtió en comandante de escuadrilla y desde 2006 desempeñaba funciones de seguridad en vuelo en el centro de mando de Metz.

Su funeral fue presidido por el sacerdote Pierre Demoures, un ex piloto de combate. En su homilía, el Padre Demoures recordó a Caroline como una persona que condujo a la gente a Cristo con sus “sus cualidades, amabilidad, disponibilidad, pasión” y por sus “opciones” al considerar “a su hijo como una vida que excedía la simple visión humana de la vida” y por la cual “retrasó un tratamiento que era urgente”.

El sacerdote recordó que cuando Carolina y Christophe lo buscaron para preparar su matrimonio, le pidieron un texto que no hablara del amor del uno por el otro “sino que tratara del amor que nos abre y lleva a amar a los demás”.“La gran lección que nos dio Carolina, es la urgencia de amar. No una urgencia de temer, sino la urgencia vital de saber que solo el amor trae vida. El hombre está hecho para la vida. Esta urgencia puede hacer que el amor sea más fuerte y dar vida a un tesoro en medio de los eventos más trágicos”, aseguró el sacerdote.
ACI Prensa

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Marcel Marceau, o maior mímico do mundo


O francês Marcel Marceau, que faleceu ontem em Paris aos 84 anos, era o artista mais representativo da mímica. Em seis décadas de carreira ele fascinou o público dos cinco continentes graças a uma arte sem palavras, terna e comovedora, que ultrapassava fronteiras.
Nascido em Estrasburgo em 22 de março de 1923, no começo da Segunda Guerra Mundial se mudou para Limoges para escapar da perseguição nazista, onde se dedicou ao estudo das artes.
Seu pai, de origem judaica, não escapou à perseguição e foi deportado em 1944 ao campo de extermínio de Auschwitz, onde foi assassinado.

O jovem Marcel, que havia mudado seu nome Mangel por Marceau para ocultar suas origens nestes tempos turbulentos, se envolveu na resistência contra a ocupação nazista e participou na campana na Alemanha, onde inclusive fez algumas apresentações para as tropas aliadas.

Aluno de Etienne Decroux, pioneiro da mímica moderna, foi professor de arte dramática em Paris e ao terminar a guerra mundial ingressou na companhia de Madeleine Reanud e Jean Louis Barrault onde se destacou no papel de Arlequim.

Tomando como referência os grandes comediantes de cinema do mundo, como Chaplin - que ele imitava quando criança - e Keaton, em 1947, já com sua própria companhia, criou seu famoso personagem "Bip", que o acompanhou por toda a sua vida e que se tornou popular com seu rosto pintado de branco, calças largas de palhaço, camisa de marinheiro e uma expressividade corporal frágil somente na aparência.

Ele se tornou mundialmente famoso em 1955, quando fechou um contrato temporário nos Estados Unidos. A partir de então, começou a fazer turnês pela Europa e América.
Atuou nos melhores teatros do mundo e em 1978 criou com seus próprios discípulos e Escola Internacional de Mimodrama, na qual ensinava não apenas mímica - para garantir a importância desta arte cênica - como também dança e acrobacia.
Sua energia e constituição física o permitiram continuar atuando quase até o final de seus dias.
Em novembro de 1997 havia celebrado com grande êxito em Paris seus 50 anos de trabalho com o espetáculo "Pantomimes de Bip" e "Le chapeau melon".

Mas não deixou de subir aos palcos e em 2000 organizou uma turnê com o espetáculo "Les premiers adieux de Bip" (a primeira despedida de Bip), que teve uma continuação em 2002, "Le retour du mime Marceau" (a volta do mímico Marceau) e depois um nova turnê em 2005 pela América Latina com "Le meilleur de Marceau" (o melhor de Marceau).

Premiado na França com as maiores condecorações oficiais - Oficial de la Legión de Honor, Comendador de las Artes y las Letras y Gran Oficial de la Orden Nacional del Mérito - era membro também da Academia de Artes de Berlim e Munique.

Era também doutor "honoris causa" das universidades de Princeton, do estado de Ohio, Lindfield College, Ann Arbor (Michigan) e Ricardo Palma (Peru).

Recebeu as chaves de honra das cidades de Nova York, Los Angeles o San Juan de Puerto Rico (1994) e a Orden Generalísimo Francisco de Miranda de Venezuela em outubro de 1996. Foi embaixador da boa vontade da Unesco e membro da Associação França - Checoslovaquia.

O "Charlie Chaplin da mímica" foi casado três vezes e era pai de quatro filhos. Fez duas notáveis incursões ao cinema como ator, com Roger Vadim em "Barbarella" (1968) e com Mel Brooks en "La dernière folie" (1976).

Agência EFE

Marcel Marceau (1923-2007)

Eterno Marcel Marceau
Sem palavras.....

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Abraham Lincoln (1809 - 1865)


Lembrado como o presidente que emancipou os escravos de seu país, Lincoln é considerado um dos inspiradores da moderna democracia e uma das maiores figuras da história americana. Abraham Lincoln nasceu em Hodgenville, Kentucky, em 12 de fevereiro de 1809. Filho de lavradores, desde cedo teve de trabalhar arduamente. Aos sete anos foi para Indiana com a família, em busca de melhor situação econômica. Pouco depois perdeu a mãe, e o pai casou-se outra vez. Devido à dificuldade de encontrar uma escola no novo domicílio e desejoso de progredir, o jovem Lincoln pedia livros a amigos e vizinhos para ler depois das tarefas diárias. Empregou-se numa serraria e mais tarde em barcos dos rios Ohio e Mississipi. Em 1836, aprovado em exames de direito, tornou-se um advogado muito popular. No ano seguinte, sua família mudou-se para Springfield, Illinois, onde Lincoln encontrou melhores oportunidades profissionais. Casou-se em 1842 com Mary Todd, mulher inteligente e ambiciosa.

Início político
Filiado ao partido whig (conservador), Lincoln, entre 1834 e 1840, havia se elegido quatro vezes para a assembléia estadual, onde defendera um grande projeto para a construção de ferrovias, rodovias e canais. Nessa época, sua atitude diante do abolicionismo era reservada. Embora considerasse a escravatura uma injustiça social, temia que a abolição dificultasse a administração do país. Entre 1847 e 1849, foi representante de Illinois no Congresso, onde propôs a emancipação gradativa para os escravos, tese que desagradou tanto aos abolicionistas quanto aos escravistas. Mais decisiva foi sua oposição à guerra no México, que o fez perder muitos votos. Sem conseguir se reeleger, afastou-se da política durante cinco anos.

Presidência
A guerra contra o México ampliara o território da União e não era possível prever se a população das novas terras se declararia a favor da escravidão. Instalou-se uma grande polêmica nacional. Lincoln assumiu atitude antiescravagista e transformou-se no paladino dessa tendência após o debate que travou com o senador democrata Stephen Douglas. Em 1858, candidato ao Senado pelo novo Partido Republicano, perdeu as eleições para Douglas, mas tornou-se líder dos republicanos. Em 1860, disputou o pleito para a presidência da república e elegeu-se o 16º presidente dos Estados Unidos.

Guerra de secessão
Ao iniciar seu governo, em 4 de março de 1861, Lincoln teve de enfrentar o separatismo de sete estados escravistas do sul, que formaram os Estados Confederados da América. O presidente foi firme e prudente: não reconheceu a secessão, ratificou a soberania nacional sobre os estados rebeldes e convidou-os à conciliação, assegurando-lhes que nunca partiria dele a iniciativa da guerra. Os confederados, porém, tomaram o forte Sumter, na Virgínia Ocidental. Lincoln encontrou o governo sem recursos, sem exército e com uma opinião pública que lhe era favorável somente em reduzida escala. Com vontade férrea, profunda fé religiosa e confiança no povo, iniciou uma luta que primeiramente lhe foi adversa. Só conseguiu armar sete mil soldados, com os quais começou a guerra. Num só ano, decuplicou o Exército, organizou a Marinha e obteve recursos. Os confederados haviam consolidado sua situação, com a adesão de mais quatro estados aos sete sublevados. Em meados de 1863 chegaram à Pensilvânia e ameaçaram Washington. Foi nesse grave momento que se travou, em 3 de julho de 1863, a batalha de Gettysburg, vencida pelas forças do norte. Lincoln, que decretara a emancipação dos escravos e tomara outras providências liberais, pronunciou, meses depois, ao inaugurar o cemitério nacional de Gettysburg, o célebre discurso em que definiu o significado democrático do governo do povo, pelo povo e para o povo, e que alcançou repercussão mundial. A guerra continuou ainda por dois anos, favorável à União. Lincoln foi reeleito presidente em 1864. Em 9 de abril de 1865, os confederados renderam-se em Appomattox. Embora considerado conservador ou reformista moderado no início da presidência, as últimas proposições de Lincoln foram avançadas. Preparava um programa de educação dos escravos libertados e chegou a sugerir que fosse concedido, de imediato, o direito de voto a uma parcela de ex-escravos. Inclinou-se também à exigência dos radicais por uma ocupação militar provisória de alguns estados sulistas, para implantar uma política de reestruturação agrária. Em 14 de abril de 1865, Lincoln assistia a um espetáculo no Teatro Ford, em Washington, quando foi atingido na nuca por um tiro de pistola desferido por um escravista intransigente, o ex-ator John Wilkes Booth. Transportado para uma casa vizinha, Lincoln morreu na manhã do dia seguinte.

DISCURSO DE GETTYSBURG

Discurso proferido por Abraham Lincoln em 19 de Novembro de 1863, na cerimónia de inauguração do Cemitério Militar de Gettysburg, no local onde se tinha dado a batalha do mesmo nome.

O Discurso de Gettysburg é um dos grandes discursos proferidos na língua inglesa, o mais conhecido discurso de Lincoln, possivelmente o mais importante presidente americano, e um discurso político essencial para a história americana e da democracia ocidental.

Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.

Encontramo-nos actualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.

Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.
O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.

Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.

Abraham Lincoln
19 de Novembro de 1863
Cemitério Militar de Gettysburg
Pensilvânia, Estados Unidos da América

(texto original)

Four score and seven years ago our fathers brought forth on this continent a new nation, conceived in liberty and dedicated to the proposition that all men are created equal.

Now we are engaged in a great civil war, testing whether that nation or any nation so conceived and so dedicated can long endure. We are met on a great battlefield of that war. We have come to dedicate a portion of that field as a final resting-place for those who here gave their lives that that nation might live. It is altogether fitting and proper that we should do this.

But in a larger sense, we cannot dedicate, we cannot consecrate, we cannot hallow this ground. The brave men, living and dead who struggled here have consecrated it far above our poor power to add or detract. The world will little note nor long remember what we say here, but it can never forget what they did here.

It is for us the living rather to be dedicated here to the unfinished work which they who fought here have thus far so nobly advanced. It is rather for us to be here dedicated to the great task remaining before us – that from these honored dead we take increased devotion to that cause for which they gave the last full measure of devotion – that we here highly resolve that these dead shall not have died in vain, that this nation under God shall have a new birth of freedom, and that government of the people, by the people, for the people shall not perish from the earth.

http://www.alplm.org/home.html

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Anam Glas no Museu Militar


Formada por jovens entusiastas da cultura de origem celta, a Anam Glas tem se tornado uma agradável surpresa no cenário musical do Rio de Janeiro. O que começou como brincadeira nos pubs cariocas hoje se consolidou em um trabalho sério dedicado à promoção da música celta, rendendo participações em novela, workshops e concertos em diversos locais do circuito cultural.

Bruno Loureiro – violão
Bruno Sá – whistles, flauta irlandesa, escaleta
Cris Suzuki – bodhrán e percussão
Luiz Garcia – violão, whistles, voz
Oswaldo Velasco – violino
Paula Mineoka – voz
Rodrigo Eberienos – harmônicas

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Goya's Ghosts

"Os Fantasmas de Goya"

Em 1791, durante o reinado de Carlos IV, Espanha é ainda um vasto império onde a Inquisição tenta reprimir as ideias que chegam da Europa, sobretudo da França revolucionária.
Goya é o pintor da corte e entre os clientes que o procuram para que os retrate encontra-se Lorenzo Casamaro, influente figura do Santo Ofício, e Inês Bilbatua, filha de um comerciante basco amigo de Goya. Desde que Lorenzo vê o esboço de Inês que os seus destinos se cruzam numa história trágica marcada por amor, prisão e perseguições, que se prolongam até às invasões napoleónicas. O realizador Milos Forman dá vida ao universo pictórico de Goya com personagens marcados pela luz e sombra características do pintor.

"Os Fantasmas de Goya" decorre em Espanha entre 1792 e 1809, numa época de grande agitação política caracterizada pela Inquisição Espanhola e guerras Napoleónicas.

Javier Bardem interpreta o implacável Irmão Lorenzo, um inquisidor e revolucionário.

Natalie Portman é a jovem musa de Goya, Ines, que se envolve com Lorenzo quando é injustamente acusada e presa por heresia.

Steven Skarsgard interpreta o pintor espanhol, Goya, e através do qual testemunhamos o grande épico de Milos Forman.

Milos Forman nasceu em 1932, na então Tchecoslováquia. Depois de se formar em cinema em Praga realizou, entre 1963 e 1967, três longas-metragens em seu país natal, alcançando destaque internacional. Mudou-se para os Estados Unidos em 1968 e lá estabeleceu uma carreira premiada. Venceu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 1971 por Procura insaciável e por duas vezes o Oscar de Melhor Diretor por Um estranho no ninho (1975) e Amadeus (1984).

Goya´s Ghosts no Festival do Rio 2007

Sábado - 29/09/2007
Espaço de Cinema 1
17:00:00 hs e 21:15:00 hs

Terça - 02/10/2007
São Luiz 3
14:00:00 hs e 19:00:00 hs

Quarta - 03/10/2007
Leblon 1
16:30:00 hs e 21:30:00 hs

Festival do Rio 2007


A partir desta terça-feira (18), às 12h, os ingressos para o Festival do Rio estarão à venda na sede do evento, no cinema Espaço Unibanco (r. Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo).
O festival será aberto na quinta-feira com a exibição de “Tropa de elite”, de José Padilha, e acontece até o dia 4 de outubro. A mostra vai reunir mais de 400 filmes, espalhados por mais de 30 locais da cidade.
Os ingressos das salas de cinema custam entre R$ 12 e R$ 17, com meia entrada para estudantes e idosos. Há também as sessões populares, no Odeon BR, que custam R$ 2, e as exibições em centros culturais, R$ 6. Nas lonas culturais e na praia de Copacabana as sessões têm entrada franca.
Além das entradas avulsas para os filmes, também estarão à venda dois tipos de passaportes, o que dá direito a 20 sessões (R$ 130) e o de 50 sessões (R$ 260).
Ingressos antecipados também podem ser comprados por meio da internet, no site www.ingresso.com , que cobra taxa de conveniência.

sábado, 15 de setembro de 2007

Eternas saudades...

Allá donde se cruzan los caminos,
donde el mar no se puede concebir,
donde regresa siempre el fugitivo,
pongamos que hablo de Madrid.
Donde el deseo viaja en ascensores,
un agujero queda para mí,
que me dejo la vida en sus rincones,
pongamos que hablo de Madrid.
Las niñas ya no quieren ser princesas,
y a los niños les da por perseguir
el mar dentro de un vaso de ginebra,
pongamos que hablo de Madrid.
Los pájaros visitan al psiquiatra,
las estrellas se olvidan de salir,
la muerte viaja en ambulancias blancas,
pongamos que hablo de Madrid.
El sol es una estufa de butano,
la vida un metro a punto de partir,
hay una jeringuilla en el lavabo,
pongamos que hablo de Madrid.
Cuando la muerte venga a visitarme,
que me lleven al sur donde nací,
aquí no queda sitio para nadie,
pongamos que hablo de Madrid.

Joaquín Sabina - Pongamos que hablo de Madrid

http://www.joaquinsabina.net/

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A volta de Calvin & Haroldo


O livro não é inédito no Brasil, mas andava sumido das prateleiras e só era encontrado em sebos. O primeiro álbum com as tiras de "Calvin e Haroldo" produzidas pelo americano Bill Watterson está de volta. Agora pela editora Conrad e com direito até a subtítulo explicativo: "e foi assim que tudo começou". Mais claro impossível.
Foi com esta maravilha dos quadrinhos que passamos a conhecer o pequeno moleque criativo como qualquer criança de sua idade e, por isso mesmo, apaixonante. Poucos personagens infantis são tão cativantes como Calvin e seu tigre de pelúcia, que ganha vida aos olhos do garoto.
A Conrad que já havia lançado em fevereiro o álbum "O mundo é mágico" **(ver a seguir), com as últimas tiras do moleque, publica agora este, "Calvin e Haroldo - e foi assim que tudo começou" (pb, 128 pgs., R$ 29,90), que reúne o material produzido por Watterson entre 1985 e 1986, o início de tudo. A idéia da editora é lançar dois álbuns por ano.

Acredite, poucas coisas em quadrinhos (e em boa parte da face da Terra) são mais divertidas do que este álbum. Quem não leu, por favor, leia.

**O lançamento da obra completa de Calvin & Haroldo começou pelo álbum, inédito no Brasil, O Mundo é Mágico – As Aventuras de Calvin & Haroldo. A tirinha diária que chegou a ser publicada simultaneamente em mais de 2.400 jornais ao redor do mundo foi criada por Bill Waterson em 1985 e foi mantida pelo autor até 31 de dezembro de 1995. A série ganhou duas vezes o Reuben Award, da Associação Nacional de Cartunistas dos EUA, em 1986 e 1988.
Em inglês a série é chamada de Calvin & Hobbes, em alusão ao teólogo protestante francês Jean Calvin e ao filósofo inglês Thomas Hobbes. A tirinha conta as aventuras de Calvin, um garoto de seis anos de idade e de seu amigo imaginário, o tigre Haroldo (um bichinho de pelúcia que, na ausência de adultos ganha vida). Inspirado no trabalho de Charles Schulz (autor de Snoopy), Waterson criou um garoto com uma imaginação invejável e com disposição interminável as travessuras. Porém, além de atirar bolas de neve na vizinha Sally e vender o planeta Terra para extraterrestres, Calvin é um alter-ego de Waterson, sempre questionando os valores da sociedade, desde preocupações ambientais até questionamentos éticos. A dupla cunhou centenas de frases clássicas como: "faça o que tem que fazer e deixe os outros discutirem se é certo ou não”. Um dos fatos mais lembrados a respeito de Calvin & Haroldo é o fato de que a tirinha não gerou nenhum tipo de merchandising oficial – nada de lancheiras, bonecos, decalques ou outras bugigangas. Como explica Bill Waterson: “Na verdade, no começo da série, eu não era contra o merchandising, mas cada produto que pensei em criar parecia violar o espírito da tirinha, contradizendo a sua mensagem, e me afastando do trabalho que eu amava”. O álbum que acaba de sair traz as últimas tirinhas de Calvin & Haroldo desenhadas por Waterson. Com tradução exclusiva, o livro também tem as famosas tiras coloridas de domingo. Pela primeira vez em livro no Brasil, O Mundo é Mágico está repleto do humor, ironia e inteligência que fez de Waterson o maior cartunista de sua geração.


Você sabia:
-Que o comediante David Spade tem uma tatuagem com a imagem de Calvin que foi feita pelo ator Sean Penn ao vivo pela televisão no programa Saturday Night Live?
-Que Bill Waterson trabalhou como chargista e também como designer de embalagens antes de começar a publicar Calvin & Haroldo?
-Que a obsessão do pai de Calvin pelas situações que “formam caráter” são inspiradas no próprio pai de Waterson?
O Mundo é Mágico - As Aventuras de Calvin & Haroldo
Editora Conrad
Autor: Bill Waterson
Tradutor: Luciano Vieira Machado
Preço: R$ 44,90

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Uma vergonha de senadores...

O Globo

Diego Velázquez (1599 - 1660)

Um dos maiores nomes da pintura universal, Velázquez distinguiu-se não só pelo domínio da técnica como pelo humanismo, que envolve com uma aura de nobreza e dignidade todos os personagens que retratou.

Diego Rodríguez de Silva Velázquez, filho de um fidalgo de origem portuguesa, foi batizado em Sevilha, Espanha, em 6 de junho de 1599. Sua aptidão para a pintura se manifestou muito cedo e ele teve como mestres Francisco Herrera o Velho e, depois, Francisco Pacheco, de quem mais tarde se tornou genro. A principal fonte de informações sobre os primeiros anos de sua carreira é a obra Arte de la pintura (Arte da pintura), que Pacheco publicou em 1649.

Velázquez iniciou sua carreira pelo naturalismo, sob a influência de Caravaggio e Pieter de Aertsen. As obras de sua fase sevilhana são, sobretudo, naturezas-mortas e cenas de gênero -- "Velha fritando ovos" (1618; National Gallery, Edimburgo), "O aguadeiro de Sevilha" (1619; Museu Wellington, Londres). O artista já se destacava então pela exploração do contorno e dos contrastes ilusionistas de luz e sombra. Nessa fase, Velázquez produziu também algumas composições de tema religioso, como as telas "Jesus em casa de Marta e Maria" (c. 1618; National Gallery, Londres) e "Adoração dos magos" (1619; Prado).

Em 1622, após a coroação de Filipe IV, Velázquez visitou Madri pela primeira vez, com o propósito de retratar o novo soberano. Embora já tivesse conquistado prestígio como retratista, só conseguiu seu objetivo no ano seguinte, quando foi nomeado, com o apoio do conde-duque de Olivares, seu protetor, para o cargo de pintor da corte madrilenha. Nas novas atribuições, desenvolveu ainda mais seu talento, com o estudo das coleções reais. Em 1628, o famoso pintor flamengo Rubens visitou a Espanha e, estimulado por ele, Velázquez viajou à Itália para conhecer o trabalho dos mestres italianos.

De 1629 a 1631, Velázquez visitou os mais importantes centros culturais da Itália, descobriu o colorido da escola veneziana e copiou e estudou, entre outros, Ticiano, Tintoretto e Veronese. A viagem intensificou o realismo de Velázquez, como demonstram duas de suas mais importantes composições, "A forja de Vulcano" (1630; Prado) e "A túnica ensangüentada de José levada a Jacó" (1630; El Escorial). Por sua composição, ambas as telas revelam a influência de El Greco, pelo qual Velázquez nutria intensa admiração. Entre a produção dessa época destaca-se também "Crucifixão" (c. 1631; Prado); tipicamente espanhola, trata-se de uma composição sombria, que nada deve às representações italianas, e cujo realismo ultrapassa todas as convenções.

Obrigado a regressar à Espanha em 1631, por problemas de saúde, Velázquez retomou suas funções e deu início à fase mais produtiva de sua carreira, marcada não apenas pelos retratos de personagens da corte, mas também por trabalhos com temas históricos, mitológicos e religiosos. Para a redecoração do palácio de Bom Retiro, realizou diversos retratos eqüestres de Felipe IV e sua única obra com tema histórico, "A rendição de Breda" (1634-1635; Prado). Também conhecida como "As lanças", a obra é considerada por grande parte dos críticos como a mais perfeitamente equilibrada do artista.

Datam dessa época as famosas séries de retratos do soberano, eqüestres e em vestimentas de caça, e de outros personagens da corte espanhola em poses informais, como o do "Príncipe Baltasar Carlos" (Prado), que se destaca pela espontaneidade. Dentre as composições mais notáveis dessa fase sobressaem os retratos de anões e bufões, nos quais Velázquez demonstra grande discernimento psicológico e poder de caracterização na capacidade de realçar a dignidade dos modelos em contraste com sua deformidade, claramente exposta.

Em 1649, Velázquez empreendeu nova viagem à Itália, dessa vez em missão oficial, para adquirir pinturas e esculturas para a coleção real espanhola. Nesse período, o artista se encontrava no auge de sua forma e antes de regressar a Madri pintou três de suas obras mais conhecidas: o retrato do papa Inocêncio X (1650; Galleria Doria Pamphili, Roma), quase impressionista, notável pela severidade e que lhe valeu celebridade internacional, e suas únicas paisagens, duas vistas da Vila Medici, em Roma (Prado). Únicos exemplares de paisagens puras em sua obra, marcadas pela liberdade de pincelada, as duas pequenas telas bastariam para justificar a posição de Velázquez como principal precursor do impressionismo.

De volta a Madri em 1651, foi encarregado da decoração de todos os palácios reais, mas prosseguiu com seus trabalhos de pintura, embora em ritmo menos acelerado. São dessa época os retratos da rainha D. Mariana (1652-1653; Prado) e da infanta D. Maria Teresa (1652-1653; Museu de História da Arte, Viena), que mais tarde se tornaria rainha da França. Por volta de 1655, pintou o primeiro quadro na história da arte dedicado ao trabalho, "As fiandeiras" (Prado), que teve suas proporções definidas com base na observação de Velázquez das composições do teto da capela Sistina.

Também nessa época o artista concluiu o que todos os críticos consideram sua obra-prima, a tela "As meninas" (c. 1656; Prado), composição de extrema complexidade que culmina a série dos quadros da corte. É a síntese de seu realismo e de seu idealismo, tanto no sentido das proporções ideais como no do espírito aristocrático. A composição contrasta o grupo circular das figuras em cena e as linhas verticais que tendem para cima. Igual contraste se nota entre os fundos escuros e a luz que envolve as figuras. A infanta Margarida Maria é o centro ideal da composição e em torno dela giram as outras figuras, inclusive o próprio Velázquez, auto-retratado. A cena parece inesperada e espontânea -- a infanta e suas damas de honra o vêem pintar o rei e a rainha, vistos apenas refletidos num espelho ao fundo -- apesar da hierarquia calculada do conjunto, com o artista em discreto segundo plano.

Existem pouco mais de cem obras conhecidas de Velázquez. Como quase nunca assinava seus trabalhos, o artista teve atribuídas a ele muitas telas de outros pintores. Embora suas obras chamem a atenção pela aparente naturalidade, não são fruto da simples observação, mas de uma elaboração intelectual, na busca de uma representação ideal do mundo em formas ideais. Cercado de prestígio e honrarias, Velázquez morreu em Madri, em 6 de agosto de 1660.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

Las Meninas

Las Meninas, (La Familia de Felipe IV) - Museo del Prado, Madrid.
Las Meninas es la obra más famosa de Velázquez. Fue pintada por el genial artista sevillano en 1656, según Antonio Palomino, fecha bastante razonable si tenemos en cuenta que la infanta Margarita nació el 12 de julio de 1651 y aparenta unos cinco años de edad. Sin embargo, Velázquez aparece con la Cruz de la Orden de Santiago en su pecho, honor que consiguió en 1659. La mayoría de los expertos coinciden en que la cruz fue pintada por el artista cuando recibió la distinción, apuntándose incluso a que fue el propio Felipe IV quien lo hizo.
La estancia en la que se desarrolla la escena sería el llamado Cuarto del Príncipe del Alcázar de Madrid, estancia que tenía una escalera al fondo y que se iluminaba por siete ventanas, aunque Velázquez sólo pinta cinco de ellas al acortar la sala. El Cuarto del Príncipe estaba decorado con pinturas mitológicas, realizadas por Martínez del Mazo copiando originales de Rubens, lienzos que se pueden contemplar al fondo de la estancia.
En la composición, el maestro nos presenta a once personas, todas ellas documentadas, excepto una. La escena está presidida por la infanta Margarita y a su lado se sitúan las meninas María Agustina Sarmiento e Isabel de Velasco. En la izquierda se encuentra Velázquez con sus pinceles, ante un enorme lienzo cuyo bastidor podemos observar. En la derecha se hallan los enanos Mari Bárbola y Nicolasillo Pertusato, este último jugando con un perro de compañía. Tras la infanta observamos a dos personajes más de su pequeña corte: doña Marcela Ulloa y el desconocido guardadamas. Reflejadas en el espejo están las regias efigies de Felipe IV y su segunda esposa, Mariana de Austria. La composición se cierra con la figura del aposentador José Nieto.
Las opiniones sobre qué pinta Velázquez son muy diversas. Soehner, con bastante acierto, considera que el pintor nos muestra una escena de la corte. La infanta Margarita llega, acompañada de su corte, al taller de Velázquez para ver como éste trabaja. Nada más llegar ha pedido agua, por lo que María Sarmiento le ofrece un búcaro con el que paliar su sed. En ese momento, el rey y la reina entran en la estancia, de ahí que algunos personajes detengan su actividad y saluden a sus majestades, como Isabel de Velasco. Esta idea de tránsito se refuerza con la presencia de la figura del aposentador al fondo, cuya misión era abrir las puertas de palacio a los reyes, vestido con capa pero sin espada ni sombrero. La pequeña infanta estaba mirando a Nicolasillo, pero se percata de la presencia de sus regios padres y mira de reojo hacia fuera del cuadro. Marcela Ulloa no se ha dado cuenta de la llegada de los reyes y continúa hablando con el aposentador, al igual que el enano, que sigue jugando con el perro.
Pero el verdadero misterio está en lo que no se ve, en el cuadro que está pintando Velázquez.
Algunos autores piensan que el pintor sevillano está haciendo un retrato del Rey y de su esposa a gran formato, por lo que los monarcas reflejan sus rostros en el espejo.
Carl Justi considera que nos encontramos ante una instantánea de la vida en palacio, una fotografía de cómo se vivía en la corte de Felipe IV.
Ángel del Campo afirma que Velázquez hace en su obra una lectura de la continuidad dinástica. Sus dos conclusiones más interesantes son las siguientes: las cabezas de los personajes de la izquierda y las manchas de los cuadros forman un círculo, símbolo de la perfección. En el centro de ese círculo encontramos el espejo con los rostros de los reyes, lo que asimila la monarquía a la perfección. Si unimos las cabezas de los diferentes personajes se forma la estructura de la constelación llamada Corona Borealis, cuya estrella central se denomina Margarita, igual que la infanta. De esta manera, la continuidad de la monarquía está en la persona de Margarita, en aquellos momentos heredera de la corona. Del Campo se basa para apoyar estas teorías en la gran erudición de Velázquez, quien contaba con una de las bibliotecas más importantes de su tiempo.
Jonathan Brown piensa que este cuadro fue pintado para remarcar la importancia de la pintura como arte liberal, concretamente como la más noble de las artes. Para ello se basa en la estrecha relación entre el pintor y el monarca, incidiendo en la idea de que el lienzo estaba en el despacho de verano del rey, pieza privada a lo que sólo entraban Felipe IV y sus más directos colaboradores.
En cuanto a la técnica con que Velázquez pinta esta obra maestra -considerada por Luca Giordano "la Teología de la Pintura"-, el primer plano está inundado por un potente foco de luz que penetra desde la primera ventana de la derecha. La infanta es el centro del grupo y parece flotar, ya que no vemos sus pies, ocultos en la sombra de su guardainfante. Las figuras de segundo plano quedan en semipenumbra, mientras que en la parte del fondo encontramos un nuevo foco de luz, impactando sobre el aposentador que recorta su silueta sobre la escalera.
La pincelada empleada por Velázquez no puede ser más suelta, trabajando cada uno de los detalles de los vestidos y adornos a base de pinceladas empastadas, que anticipan la pintura impresionista. Predominan las tonalidades plateadas de los vestidos, al tiempo que llama nuestra atención el ritmo marcado por las notas de color rojo que se distribuyen por el lienzo: la Cruz de Santiago, los colores de la paleta de Velázquez, el búcaro, el pañuelo de la infanta y de Isabel de Velasco, para acabar en la mancha roja del traje de Nicolasillo.
Pero lo que verdaderamente nos impacta es la sensación atmosférica creada por el pintor, la llamada perspectiva aérea, que otorga profundidad a la escena a través del aire que rodea a cada uno de los personajes y difumina sus contornos, especialmente las figuras del fondo, que se aprecian con unos perfiles más imprecisos y colores menos intensos. También es interesante la forma de conseguir el efecto espacial, creando la sensación de que la sala se continúa en el lienzo, como si los personajes compartieran el espacio con los espectadores. Como bien dice Carl Justi: "No hay cuadro alguno que nos haga olvidar éste".

terça-feira, 11 de setembro de 2007

In memoriam


11 - 09 - 2001

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Uma viagem no tempo


Olhe bem esta foto. Você verá muitas estrelas, algumas galáxias e, lá no meio, indicado por duas linhas quase na vertical, existe um quasar. Ele quase não aparece, mas está lá. A imagem desta foto tem o tamanho aproximado da Lua Cheia no céu, mas o que a torna especial não é isso. Ela é uma visão do passado, quase um "túnel do tempo"
!Por causa da limitação da velocidade da luz (uma das bases da relatividade), a luz de galáxias e estrelas não chegam instantaneamente até nós. Quanto mais distante um objeto, mais tempo leva para chegar a luz. Até mesmo com o Sol, que está aqui ao "lado", temos um "atraso". A luz que nos chega agora partiu de lá há uns 8 minutos -- o Sol está a 150 milhões de quilômetros, ou a 8 minutos-luz de distância da Terra.
Voltando à foto, as estrelas estão por perto na Via-Láctea, as mais próximas (as mais brilhantes) estão a algumas dezenas de anos-luz, e as mais distantes, a algumas dezenas de milhares de anos-luz. Já as galáxias estão a milhões e milhões de anos-luz, o que significa que, dependendo da direção olhada, você verá uma idade diferente do universo, com as informações de cada uma das idades. Agora, olhando para o centro da foto, você verá um dos mais distantes (e antigos) objetos conhecidos do universo até o momento: o quasar CFHQS 1641+3755.
Um quasar é na verdade um buraco negro supermassivo devorando matéria no núcleo de uma galáxia. Este em específico está a 12,7 bilhões de anos-luz! Isto significa que a luz que nós vemos hoje partiu de lá quando o universo tinha 7% da idade atual. Objetos tão distantes como esse são usados para estudar os momentos iniciais do universo. Este quasar, por exemplo, é testemunha de uma época conhecida como Era da Reionização, quando as primeiras estrelas do universo se formaram e começaram a ionizar o meio interestelar. O estudo dessas estrelas é um dos assuntos mais interessantes da atualidade, pois não seria difícil de se formar uma estrela de hidrogêncio puro com mais de mil massas solares! Hoje em dia isso não é mais possível e o limite teórico está em "apenas" em 150 massas solares.
Cássio Leandro Barbosa - Pós-doutorado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e professor da Universidade do Vale do Paraíba, em São José dos Campos (SP).

En un lugar de la Mancha...

Em princípios de maio de 2002, uma impressionante comissão de críticos literários de várias partes do mundo escolheu o livro Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), a partir de 1602, como a melhor obra de ficção de todos os tempos. Ao tempo em que narrava os feitos do Cavaleiro da Triste Figura em ritmo dos romances da cavalaria, Cervantes enervado com o sucesso daquele tipo de gênero literário junto ao grande público, realizou uma das maiores sátiras aos preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis de cavalaria.

Agonia do cavaleiro da triste figura
"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade."
Erasmo – Elogio da Loucura, 1509
No final de uma caçada às lebres, ele sentiu-se exausto. Pediu que o levassem ao leito. Dom Quixote percebeu a presença da morte. Logo os amigos chamaram um médico que, pegando-lhe o pulso, recomendou com a rude franqueza dos castelhanos que tratasse de salvar a alma, porque o corpo era de pouca valia. Então algo poderoso ocorreu. Aos brados o moribundo disse ter recuperado o juízo, livrara-se das desgraçadas leituras que fizera sobre os feitos dos cavaleiros. Disse abominar Amadis de Gaula, o espadachim de fantasia que tanto o inspirara até não muito. Esperou então, sereno, a morte para livrar-se daquelas assombrações da literatura que tanto infernizaram a sua vida.Em tempos bem anteriores, ainda que magro de doer, dispunha de saúde suficiente para lançar-se pelo mundo afora. Até os cinqüenta anos vivera com criada, sobrinha e um rapaz arrieiro, numa fazendola na província da Mancha, uma espécie de brejo-seco do Reino de Castela, na Espanha. Desocupado, empobrecido, passara os dias lendo os feitos dos heróis da cavalaria. Até que um dia, conta Cervantes, de tanta leitura, seus miolos ressecaram. Imitando então aquela brava gente que povoava os seus sonhos, cismou em querer consertar as coisa tortas e desfazer os agravos do mundo. Mandou pôr uma sela em Rocinante, seu maltratado pangaré, calçou-se com as velhas armas dos seus antepassados, um escudo, e saiu a trote atrás de façanhas que lhe dessem renome. E como ele próprio esperava:
—Dichosa edad y siglo dichoso aquel adonde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro. (Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de entalhar-se em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro) (D.Quixote: II Capítulo)
Metido em aventuras mil
Aventuras e desassossegos de toda a ordem é o que não lhe faltaram pelas andanças pelo ermos de Castela. Além de fantasiar uma dama só sua, uma pobre camponesa que ele chamou de Dulcinéia del Tomboso, teve a felicidade de encontrar um homem da sua aldeia, o gorducho Sancho Pança, um lavrador, logo promovido a escudeiro, e que, entre outras coisas, tentou inutilmente inculcar em Dom Quixote algum princípio de realidade que fosse. Sim, porque o nosso cavaleiro vivia oscilando em perpetrar as loucuras desaforadas de Roldão ou mergulhar nas melancolias de Amadis, seus modelos. De longe ou de perto, o contraste espantoso entre o Cavaleiro da Triste Figura, como Dom Quixote mesmo se chamou, magro e alto, e o seu valet, o pequenino e roliço Sancho, montando em seu burrico, incendiou a imaginação de todos. Maldizia o tempo todo a época que lhe coubera viver. A pólvora e o chumbo, discursou ele, liquidaram com os cavaleiros. Um disparo de longe, arte de um covarde, destroçava a vida de um bravo. Surras “ da fementida canalha”, também não lhe faltaram. Certa vez, em pleno campo, encontrando uma fila de bandidos atados, conduzidos por alguns policiais, resolveu espantar a lei. Engalfinhou-se com os guardas que fugiram espavoridos dos espadaços daquele doido. Soltos, os foras-da-lei, além de surripiarem-lhe os pertences, aplicaram-lhe uma sova de dar dó. Comentário de Dom Quixote: “aos cavaleiros andantes não pertence averiguar se os afligidos, acorrentados e opressos...vão pelas estradas por suas culpas, ou por serem desgraçados... só lhe cabia ajudá-los como necessitados”. Nem na dor das imerecidas porretadas ele se emendava!
Estrutura e prosa da obra
Dom Quixote de La Mancha, a maravilha literária de Cervantes, narrado na mais fina prosa castelhana, é composta de 126 capítulos de sabedoria, amizade, enternecimento, encantamentos, loucuras e divertimento, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. Monumento que Cervantes começou a erguer com pena e tinta, "no silêncio do esquecimento", encarcerado em Sevilha, em 1602, por mesquinharias. Obra que mais de 100 críticos literários, vindos de todas as partes, recentemente reunidos, indicaram como o melhor livro do mundo. Numa das suas digressões, Cervantes deu para comparar a vida de soldado, que ele foi, com a de escritor, que ele terminou sendo, concluindo que aquele ofício só lhe dera dor de cabeça, vigílias, vazios de fome e padecimentos mil. Todavia, ao contrário de Shakespeare, seu contemporâneo, era consciente de que criara uma obra-prima, algo verdadeiramente extraordinário. Enquanto isso, numa desconhecida aldeia da Mancha, o corpo do velho fidalgo maluco recebia as exéquias. Não se enganem, não o enterraram não. Basta a qualquer leitor abrir a primeira página do Dom Quixote para ver que, erguendo a espada, o soberbo doido está ali vivíssimo, pronto para sair a assombrar o gigante Briareu e pôr a correr as injustiças.

domingo, 9 de setembro de 2007

Mosteiro de San Lorenzo del Escorial

El Escorial - O maior legado de Felipe II


O nascimento do magno mosteiro teve sua origem quando o rei Felipe II buscava um lugar para guardar a tumba do seu pai, o imperador Carlos V e, ao mesmo tempo, criar um centro político para centrar os seus reinos herdados, onde situar sua corte.

A localização não foi eleita por acaso, desde astrólogos a paisagistas, desde arquitetos a teólogos, estudaram o melhor lugar para sua construção. Decidiram que a localidade mais acertada era O Escorial, atualmente uma pequena cidade da Comunidade de Madrid, Espanha.

As obras, iniciadas em 1563, foram começadas pelo arquiteto do rei, Juan Bautista de Toledo, a quem se pode considerar o criador de tão magna realização. A ele também se deve o atual perímetro do recinto, bem como suas torres angulares. Contou o maestro com a inestimável ajuda de um discípulo de exceção, Juan de Herrera.

A finalidade outorgada, desde sua primeira proposta, à nova edificação, foi tríplice. Devia cumprir como panteão da família real, como palácio e como mosteiro.
O nome que recebeu, foi dado em homenagem à vitória conseguida pelos espanhóis na batalha de San Quintín, ocorrida na onomástica de San Lorenzo. É por este motivo que todo o conjunto tem forma de grelha, utensílio que se usou para o martírio do Santo.

O aspecto inicial da construção variou muito com relação ao que hoje em dia se pode contemplar. Em seus começos dispunha de quinze torres, um bosque que tendia para o céu, mais próximo da escola gótica. O resultado desta megalítica obra de granito, é de uma extrema singeleza e austeridade.

São muitas as estâncias que merecem destaque ao falar do Mosteiro de San Lorenzo do Escorial, desde sua impressionante biblioteca, ao surpreendente Panteão dos Reis, situado embaixo do presbitério da basílica. Também merece destaque o Pátio dos Evangelistas, um dos exemplos mais sereno do renascimento formado em duas ordens sobrepostas, ao estilo romano.

A decoração de suas salas foi realiza por artistas italianos, como Zuccero, Cambiaso e Tibaldi. Esteve presente também o labor pictórico de artistas como O Bosco e O Greco. Destaca-se também uma das obras mestras de Claudio Coello, A Adoração da Sagrada Forma, na sacristia.

Em 1984 foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, tanto em reconhecimento da obra em si, como ao enclave natural que o rodeia.
 
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