sexta-feira, 29 de junho de 2007

O Pequeno Príncipe


O Pequeno Príncipe foi escrito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupéry um ano antes de sua morte, em 1944. Piloto de avião durante a Segunda Grande Guerra, o autor se fez o narrador da história, que começa com uma aventura vivida no deserto depois de uma pane no meio do Saara. Certa manhã, é acordado pelo Pequeno Príncipe, que lhe pede: "Desenha-me um carneiro"? É aí que começa o relato das fantasias de uma criança como as outras, que questiona as coisas mais simples da vida com pureza e ingenuidade. O principezinho havia deixado seu pequeno planeta, onde vivia apenas com uma rosa vaidosa e orgulhosa. Em suas andanças pela Galáxia, conheceu uma série de personagens inusitados – talvez não tão inusitados para as crianças!

Um rei pensava que todos eram seus súditos, apesar de não haver ninguém por perto. Um homem de negócios se dizia muito sério e ocupado, mas não tinha tempo para sonhar. Um bêbado bebia para esquecer a vergonha que sentia por beber. Um geógrafo se dizia sábio mas não sabia nada da geografia do seu próprio país. Assim, cada personagem mostra o quanto as “pessoas grandes” se preocupam com coisas inúteis e não dão valor ao que merece. Isso tudo pode ser traduzido por uma frase da raposa, personagem que ensina ao menino de cabelos dourados o segredo do amor: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

Antoine de Saint-Exupéry via os adultos como pessoas incapazes de entender o sentido da vida, pois haviam deixado de ser a criança que um dia foram. Entendia que é difícil para os adultos (os quais considerava seres estranhos) compreender toda a sabedoria de uma criança.

Desta fábula foram feitos filmes, desenhos animados, além de adaptações. Muitos adultos até hoje se emocionam ao lembrar do livro. Talvez porque tenham se tornado “gente grande” sem esquecer de que um dia foram crianças.


" As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

"O Amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte".

"O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção."

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante."

" Não exijas de ninguém senão aquilo que realmente pode dar."

"Em um mundo que se fez deserto, temos sede de encontrar companheiros."

" Nunca estamos contentes onde estamos."

" Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."

"Para enxergar claro, bastar mudar a direção do olhar."

" Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos."

" Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus a redoma. Foi a ela que abriguei com o para-vento. Foi dela que eu matei as larvas. Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa."

" Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

" Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

" O amor verdadeiro não se consome, quanto mais dás, mais te ficas."

" Só os caminhos invisíveis do amor libertam os homens."

" O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem."

"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla."

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."

"A civilização é um bem invisível porque inscreve seu nome nas coisas",

E suas últimas palavras antes de embarcar na missão final e fatal: "Se voltar, o que será preciso dizer aos homens?"

Ele escreveria que "durante séculos e séculos a minha civilização contemplou Deus através dos homens. O homem era criado à imagem de Deus. Respeitava-se Deus no homem. Esse reflexo de Deus conferia uma dignidade inalienável ao homem", para concluir que "as relações do homem com Deus serviam de fundamento evidente aos deveres do de cada homem consigo próprio ou para com os outros".

"Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava. Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar; reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença. Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado."
"Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito, mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida, e a prova de que duas almas não se encontram ao acaso. "




Parabéns Antoine de Saint-Exupéry!!!


Antoine de Saint-Exupéry veio ao mundo em Lyon, França, em 29 de Junho de 1900, e desapareceu em 31 de Julho de 1944, no Mediterrâneo.
Esta é, em resumo, a sua biografia...

Com a prematura morte de seu pai, monsieur Jean de Saint-Exupéry, Antoine foi ter uma infância feliz ao lado da mãe, dos três irmãos e da tutora austríaca Paula no velho castelo da tia avó materna, Madame de Tricaud, em Saint-Maurice de Rémens.
Neste tempo, o melhor amigo de Antoine era um velho fogão...

Após a doce infância, a dura realidade de sua juventude contrastaria com o conto de fadas vivido em Saint-Maurice.

Antoine tinha dificuldades de se ajustar à disciplina da realidade; entregando-se a devaneios, fazia poesias, sonhava acordado... Acabou sendo reprovado no exame para ingresso na escola naval.

Nessa época, seus colegas de juventude descreviam Antoine como um “jovem tímido e introspectivo, e com tendência a súbitas mudanças de humor, transformando-se, rapidamente, de uma pessoa cheia de vida a uma atitude calada; pouco sociável e indócil, sofria, porque queria ser amado.”

Falhara irremediavelmente no concurso para ingresso na escola naval, porque ultrapassara a idade limite; então, foi estudar arquitetura. Foi um período “sociável” de Antoine, mas uma época insípida, porque, embora gostasse de desenhar, não estava feliz com os estudos de arquitetura. Quando Antoine foi convocado para servir no Segundo Regimento da Força Aérea, em 02 de Abril de 1921, ele sentiu a chance de encontrar o seu verdadeiro caminho: A aviação.

A paixão de Antoine por aviação era antiga; nos tempos de infância, próximo ao castelo de Saint-Maurice, havia uma pista de aviação, na qual ele sempre espionava o vem-e-vai de pilotos e mecânicos, admirando-lhes a dedicação ao novel meio de transporte e o clima de camaradagem entre eles.

Em um dia do ano de 1912, um famoso piloto, Vedrines, levou Antoine para um passeio de avião. Este dia tornou-se inesquecível para Antoine, que descobriu que tinha alma de piloto de avião; sua bicicleta, ele transformou em um “avião”, fixando nela um par de asas...

Mas, no Segundo Regimento da Força Aérea de Strasbourg, Antoine logo se desiludiu: Eles não o haviam convocado para o pessoal de vôo, e sim como assistente de serviços de terra. Nesta ocasião, deprimido, como de costume, ele revelou sua tristeza a sua mãe, em uma carta:
“À noite, sinto-me um pouco triste. Venha algum dia a Strasbourg. Sinto-me um tanto sufocado neste lugar. Eu estou sem perspectivas. Eu preciso me dedicar a algo que eu goste. Mãe, se você soubesse o quanto é irresistível o meu desejo de voar! Se eu não conseguir meu objetivo, eu serei muito infeliz... Mas eu vou conseguir” (1921)

A falta de recursos para estudar aviação, tendo de se socorrer, constantemente, da generosidade da mãe, talvez, explique a ansiedade de Antoine, a impaciência e os conseqüentes acidentes em que se envolvia.

Definitivamente, Antoine não era um homem de sorte: Sem dinheiro, sem trabalho e moralmente abatido pelo último acidente que o fez perder tudo... Então, longos meses de amargura vieram.

Durante um tempo, quando recuperou-se dos ossos quebrados, foi trabalhar contando telhas; sentia-se prisioneiro entre as quatro paredes do escritório de quatro metros quadrado, atrás das barras de intermináveis colunas de números.

Em 1923, Antoine se descrevia, em cartas a sua mãe, como um patético, vivendo uma situação desprezível e desalentadora. Sua vida era dividida entre o escritório e o quarto de hotel onde vivia. Sua alegria era pilotar, aos finais de semana, quando tinha dinheiro para tanto... Então, seu entusiasmo não tinha limites:
“Mãe, Domingo eu fui dar uma volta de avião. Tive um bom vôo. Eu adoro voar. Você não pode imaginar a calma e a solidão que se encontra a 4.000 metros de altitude, sozinho com o motor.”

Em 1924, um novo emprego: Representante de vendas de caminhão; então, viajava o tempo todo para muitos lugares, mas, em quinze meses, vendeu apenas um caminhão... Através de uma parente distante, Antoine conheceu Jean Prevost, o qual publicou alguns de seus escritos na edição de Abril (1926) da revista “Navire d’argent”. O Piloto. Era a estória de um instrutor de vôo que, como ele, tinha depressão quando abandonava seu avião. O Piloto foi um sucesso. Nesta ocasião, conheceu Beppo de Massimi, um dos idealizadores da Companhia Aérea Latdcoe’re, que o apresentou ao inflexível e perspicaz Didier Daurant.

Antoine queria ser piloto da empresa e teve sucesso na entrevista com Daurant que, no entanto, mandou Antoine para o galpão de mecânica primeiro, como fazia com todos que queriam ser pilotos.

Alguns meses mais tarde, Antoine já voava entre Toulouse-Rabat; depois, Dakar-Casablanca, num perigosíssimo percurso de 2.765 quilômetros sobre território africano. Realizado, escreveu a sua mãe, em 1926: “Estou bem e feliz”.

Em 1927, Didier Daurant designou Antoine para assumir uma base da empresa em Cape Juby, entre Casablanca e Dakar, cuja missão seria a de resgatar pilotos franceses civis que caíssem no deserto, os quais não podiam contar com o auxílio das forças espanholas em território dissidente; muitos pilotos tinham tido suas gargantas cortadas no deserto e Daurant precisava de alguém que tivesse diplomacia para lidar com os militares espanhóis, a fim de obter permissão para construção de uma pista de pouso no deserto; ainda, tinha que ser um homem corajoso e disposto a voar, a qualquer hora, para resgatar seus companheiros que caíssem no deserto do Saara. De fato, ninguém mais apropriado para tal missão que “Saint-Ex”.

Porém, Antoine viveu ali um fim de mundo, solidão, silêncio e isolamento, cercado pelo mar de um lado e pelo deserto do outro, precariamente instalado em uma barraca que repartia com o mecânico “Toto”, dormindo em um colchão fino, com uma jarra de água e bacia de lavar o rosto, com sua máquina de escrever e alguns papéis timbrados da empresa. Antoine conquistou a confiança dos militares espanhóis e, ainda, através das crianças, a amizade dos árabes, com os quais podia contar para resgatar pilotos que caíam no deserto. Nestes tempos, escreveu seu primeiro livro, Southern Mail, sobre uma tábua apoiada em dois barris. Depois de dezoito meses em Cape July, a missão de Antoine fora ali mais do que cumprida e, como resultado de seu esforço, foi condecorado. Em seguida, Didier designou Antoine, em Outubro de 1929, como gerente chefe da companhia Aeroposta-Argentina, com a missão de abrir novos caminhos para a companhia na costa da América Latina; mesmo ganhando 225 mil francos por ano, Antoine não se sentia completamente feliz.

Todavia, foi neste período em que escreveu seu segundo livro, Night Flight, que fez um sucesso fabuloso entre o público. Mas, seus amigos o reprovaram, acusando Antoine de haver distorcido a verdadeira realidade existente na vida dramática dos pilotos que faziam os vôos noturnos.

Em 1931, Antoine casou-se com Consuelo Suncin. A Aeroposta Argentina entrou em declínio e Antoine foi demitido, voltou ao posto de simples piloto, fazendo os vôos noturnos entre Casablanca e Dakar. Porém, o governo francês transformou todas as empresas aéreas em apenas uma, a Air France, e Antoine voltou a estaca zero, com um trabalho apático de piloto de teste na companhia Latecoere, em 1932. Antoine é um péssimo piloto de testes e é obrigado a desistir deste trabalho. Em 1935, passa a viajar pela França e no exterior pelo departamento de propaganda da Air France. Então, começa a escrever artigos para o jornal “Paris Soir”; seus artigos fazem sucesso, sua situação financeira melhora e ele compra seu avião, o “Simoun”.

Ao comprar o “Simoun”, um de seus projetos era bater o recorde de velocidade entre Paris e Saigon. Em 29 Dezembro de 1935, Antoine e seu mecânico Prevot caíram no deserto, onde passaram cinco dias morrendo de sede, tendo miragens e quase morreram, quando, então, foram resgatados por beduínos. Esta experiência serviu de pano de fundo para o Pequeno Príncipe.

Apesar de ter quase morrido no deserto, Antoine não perdera a coragem, nem a fascinação pelo perigo. Ia levando a vida exercendo o jornalismo. Pelo jornal “O Intransigente”, foi enviado à Barcelona para acompanhar a guerra civil, onde Antoine passou pela amarga experiência de presenciar atrocidades.

Passados já alguns anos da fracassada aventura Paris-Saigon, Antoine estava pronto para outra: Uma corrida aérea entre Nova Ioque e Tierra del Fuego; ao decolar de uma pista na Guatemala, houve um sério acidente: Antoine teve traumatismo craniano, quase perdeu o ombro esquerdo e permaneceu em coma por vários dias em Nova Iorque. Demorou muitos meses para que Antoine se recuperasse e, durante este período, ele escreveu um novo livro, Wind, Sand and Stars, um livro de memórias sobre seus dez anos de pilotagem e velhos amigos dos tempos da rota Toulouse-Dakar, os pilotos Mermoz e Guillaumet. Em Maio de 1939, recebe o Grande Prêmio da Academia francesa. Quatro meses depois, eclodia a Segunda Grande Guerra.

Neste tempo, Antoine é capitão da reserva da Força Aérea de Toulouse. Mas, sua idade (39 anos) e seu estado de saúde (ombro semi-paralítico) o impedem de realizar missões aéreas. Porém, Antoine não se conformou com a idéia de ficar na reserva, e passou a envidar todos os esforços para poder participar de missões aéreas durante a guerra. Tanto se esforçou que convenceu o General Davet que, por sua vez, convenceu seus superiores de que, na força aérea, o que importa “não é a condição física do coração, mas sua dedicação.”

Assim, em 03 de Novembro de 1939, foi designado para o esquadrão de reconhecimento em Orconte, na província de Champagne. As experiências em Orconte, Antoine descreveria em Flight to Arras.

Em 22 de Junho de 1940, a França assinou um armistício de derrota e Antoine, sentindo-se extremamente humilhado, abandonou seu país, partindo para Nova Iorque. A França estava sob o jugo do domínio alemão e, por isso, o livro Flight to Arras, lido por um grande público americano, teve sua distribuição proibida pelos alemães na França.

Antoine permaneceu por dois anos nos Estados Unidos, correspondendo-se, por carta, com o jornalista Léon Werth, um amigo que vivia na França ocupada pelos alemães. Estas cartas foram publicadas em Fevereiro de 1943 e, em Abril do mesmo ano, foi publicado o Pequeno Príncipe, que recebeu um fria recepção do público.

Ninguém poderia imaginar que, da literatura de Antoine, seria produzido um livro como o Pequeno Príncipe, que se constituía de uma curta história para crianças, onde os animais falavam. Era inimaginável, para muitos, que um homem de ação, e com o perfil de um herói como Antoine, pudesse escrever histórias para crianças.

Todos que conheceram Antoine sabem que, sempre que tinha qualquer pedaço de papel às mãos, fosse um guardanapo de restaurante ou um papel de carta, ele desenhava crianças. Questionado, certa vez, pelo seu editor, nos Estados Unidos, Curtice Hitchcock, o que desenhava, ele respondeu: “Nada demais, apenas a criança que existe no meu coração”, ao que o editor lhe replicou que ele deveria escrever a história daquela criança em um livro de crianças. Daí, talvez, haver nascido o livro Pequeno Príncipe, cujos desenhos foram feitos pelo próprio Antoine, sem a ajuda de profissionais, de modo que as ilustrações pudessem ter a mesma simplicidade e a mesma doçura do caráter daquela curta história.

O Pequeno Príncipe foi, ao mesmo tempo, o mais simples e o mais profundo livro escrito por Antoine; superficialmente, é uma pequena história para crianças, mas, na realidade, é a história de uma criança escrita para os adultos. O Pequeno Príncipe foi “a criança que vivia dentro de Antoine, que o emocionava e o guiava, a criança que o fazia levantar nos momentos cruciais de sua vida, que o prevenia de tomar decisões estúpidas como muitos adultos que acreditam em números, em demonstrações, na seriedade da lógica mais do que na seriedade do coração”.

Em 1942, os Estados Unidos decidem entrar na Grande Guerra e desembarcam no Norte da África; após publicar o Pequeno Príncipe, Antoine segue para Algiers para se juntar a seus companheiros, sob o comando americano, no esquadrão 2/33.

Os americanos equipam o esquadrão com aeronaves Lightning P-38, que alcançam velocidades de até 700 Km/h; para pilotá-las, não podem os pilotos ter mais de 35 anos; aos 43 anos e com um ombro paralisado, Antoine seria excluído da pilotagem, mas, graças às suas amizades influentes, obtém autorização para pilotar os Lightning P-38.

Em 21 de Julho de 1944, Antoine voa em sua primeira missão sobre Rhone e Provence.
Durante sua segunda missão, efetua um pouso errado; sua idade e condições físicas são incompatíveis para a pilotagem dos P-38; Antoine é cortado do esquadrão.

Por oito meses, Antoine usa de todos os recursos para convencer pessoas influentes a ajudá-lo a retornar às missões de vôo; passa por períodos de depressão, ao mesmo tempo em que dá continuidade ao livro The Wisdom of the sands, publicado após a sua morte.

Finalmente, o Coronel Chassin, que conhecia Antoine por muitos anos, consegue convencer o General americano Eaker a deixar Antoine reintegrar-se ao esquadrão aéreo, desta vez, na Sardinia, sob a condição de que não faria mais do cinco missões de reconhecimento; contudo, estas cinco missões se transformaram em oito, porque Antoine sempre se oferecia para as missões subseqüentes.

No dia 31 de Julho de 1944, às quinze para as nove da manhã, Antoine saiu em sua nona missão, com o objetivo de fotografar Grenoble e Annecy. Uma e meia da tarde, Antoine não tinha voltado, quando ainda lhe restava apenas mais uma hora de combustível. Às duas e meia da tarde, seus companheiros suspeitaram que o pior havia acontecido.

Em 1998, um pescador (Habib Benamor) encontrou na rede que lançara ao fundo do mar uma pulseira que pertencera Exupéry.

Cinco anos antes (1993), o banco central francês lançou uma nota de cinqüenta francos com o seu retrato ao lado do Pequeno Príncipe.

Intensas pesquisas no fundo do mar próximo à Ilha de Riou foram envidadas pelo engenheiro e especialista na exploração de naufrágios Henri-Germain Delauze. O mergulhador profissional Luc Vanrell, que havia fotografado escombros metálicos naquela região (em 1982), passou a mergulhar naquela área do mar em busca de restos do avião de Exupéry, um P.38 F-5B da série J.

O DRASSM (departamento de arqueologia submarina do Ministério da Cultura francês) autorizou em 2003 uma pesquisa formal nos destroços encontrados pelos exploradores. Delauze e Vanrell passaram a trabalhar juntos. 10% da aeronave foi resgatada (uma peça de alumínio da fuselagem, um turbocompressor, componentes hidráulicos e elétricos). Philippe Castellano, historiador amador e mergulhador, foi chamado para ajudar na identificação das peças içadas à superfície pelo barco Minibex. Entre elas, Castellano encontrou o número 2734 gravado. Estava confirmado: Aquele avião era o de Exupéry...

Teria Exupéry escondido no fundo do mar o seu avião e viajado para o asteróide B 612 para juntar-se ao seu pequeno príncipe?

Uma carta foi encontrada no quarto de Exupéry. Estava endereçada ao General, a qual dizia em resumo:
“Eu não me importo se eu morrer na guerra, ou se eu me transformar em alvo destes torpedos voadores, os quais nada têm de verdadeiramente voadores, e que transformam o piloto em um contador por meio de indicadores e botões. Mas, seu eu voltar vivo desta ingrata, mas necessária “tarefa”, haverá apenas uma questão para mim: O que se pode dizer à humanidade? O que se tem que dizer à humanidade?”

“Vou confiar-te o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”


Parte do texto foi fundada em tradução de um artigo de autoria de JOELLE EYHERAMONNO. Indiretamente, em texto publicado em Lectures Faciles by Jean-Paul and Rebecca Nalette, published by D.C. Heath & Co., 1982.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Substância arranca HIV de células humanas

Cientistas conseguiram realizar, em laboratório, o que parecia impossível: arrancar o material genético do vírus HIV de células humanas infectadas por ele. Se o achado puder ser repetido em pessoas com Aids, a maior barreira para a cura definitiva da doença terá sido removida.

A descoberta está descrita na edição desta semana da revista "Science" (http://www.sciencemag.org/), a mais prestigiosa publicação científica dos Estados Unidos. A equipe liderada por Indrani Sarkar, do Instituto Max Planck de Biologia Molecular, Celular e Genética (Alemanha), usou como base uma espécie de "tesoura química", do grupo de proteínas conhecidas como recombinases. Esse picotador biológico normalmente serve para cortar DNA em bactérias.

Eles adotaram essa estratégia porque o vírus da Aids, uma vez dentro das células que infecta, é praticamente irremovível. O que acontece é que o vírus consegue se integrar ao DNA da célula humana: mesmo que sua forma ativa seja destruída pelos tratamentos atuais, ele continua lá dentro, pronto a se multiplicar quando a célula que o abriga se reproduzir.

As recombinases de bactérias poderiam ajudar no contra-ataque "recortando" o HIV dos trechos de DNA onde se instala, mas para isso seria preciso modificá-las. É que substâncias desse tipo têm sua ação guiada por alguns pedaços específicos de DNA, que dizem onde ela deve cortar - uma espécie de linha pontilhada.

Sarkar e companhia deram um jeito nisso forçando "gerações" de recombinase a evoluir no tubo de ensaio, selecionando sempre as mais adequadas para lidar com o desafio de picotar o HIV. Depois, as melhores foram submetidas ao teste de arrancar o vírus do interior de uma colônia de células humanas, também em laboratório, e se saíram bem.

No entanto, ainda é muito cedo para dizer se o mesmo valerá para um ser humano vivo, infectado com o vírus. Para Alan Engelman, pesquisador do Instituto do Câncer Dana-Faber, em Boston (EUA), a recombinase de laboratório precisa se tornar muito mais eficiente do que é hoje para lidar com a grande quantidade de vírus da Aids "integrados" no DNA dos soropositivos.
G1

Manuscritos de Leonardo da Vinci na rede

Biblioteca da cidade natal do gênio da Renascença libera 3.000 páginas de esboços. Acesso é grátis; idéia é colocar quase todos os desenhos de Da Vinci na internet.

São os verdadeiros códigos Da Vinci - aliás, códices Da Vinci seria o termo mais correto -, e podem ser desvendados de graça por qualquer pessoa com acesso à internet. A Biblioteca Leonardiana, com sede na pequena cidade da Itália onde o genial Leonardo da Vinci nasceu, colocou de graça na web cerca de 3.000 páginas digitalizadas do pioneiro renascentista. É possível ver seus esboços e, para quem sabe italiano, ler os textos que os acompanhavam.

Para acessar os arquivos, basta se cadastrar no site http://www.leonardodigitale.com/ (em italiano). Por enquanto, três cadernos de esboços do mestre estão disponíveis para visualização em alta resolução: os dois Códices Madri e o Códice Atlântico ("códice" é a palavra usada normalmente para designar livros antigos e manuscritos com o mesmo formato dos livros atuais, e não em rolos, como os papiros). São coleções de desenhos científicos e técnicos.

A Biblioteca Leonardiana, que fica em Vinci, na Toscana (centro-norte da Itália), recebeu financiamento da União Européia para o trabalho. O plano é digitalizar outros cadernos do gênio, completando um arquivo público de 12 mil páginas.

Por enquanto, dá para fazer buscas pelo número de páginas e por palavras - em italiano do século 15, bem entendido - dos textos. Os responsáveis pelo projeto esperam colocar no ar buscas em outras línguas em breve. Janelas abertas ao lado das páginas "originais" trazem o texto - o que é uma mão na roda, já que Leonardo costumava escrever ao contrário, com o texto invertido (da direita para a esquerda) com a ajuda de um espelho. (Há quem diga que isso se deva ao caráter paranóico do artista; outros sugerem que o fato de ser canhoto o levou a usar essa técnica.)

Não só de arte e sofisticação vivem os desenhos. Com sua mente frenética, Leonardo costumava usar os códices como verdadeiros cadernos de anotação, marcando até listas de compras nas margens dos desenhos.


Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci nasceu em 15/04/1452. Existem dúvidas sobre o lugar de seu nascimento: para alguns historiadores, seu berço foi uma casa de Anchiano, uma localidade de Vinci, enquanto para outros, foi o próprio lugar de Vinci, situado na margem direita do rio Arno, perto dos montes Albanos, entre Florença e Pisa. Foi um dos mais notáveis pintores do Renascimento e possivelmente seu maior gênio, por ser também anatomista, engenheiro, matemático músico, naturalista, arquiteto e escultor. Suas idéias científicas quase sempre ficaram escondidas em cadernos de anotações, e foi como artista que obteve reconhecimento de seus contemporâneos.

Estagiou no estúdio de Verrochio (importante artista da época), em Florença. Mudou-se para Milão em 1481, onde trabalhou para a corte de Ludovico Sforza. Até 1506 Leonardo trabalhou principalmente em Florença e tudo indica que nesta época tenha pintado a Mona Lisa, sua obra mais famosa. Entre 1506 e 1516, viveu entre Milão e Roma. Convidado por Francisco I , viajou para a França em 1516, onde faleceu no ano de 1519.

Leonardo Da Vinci escreveu e desenhou sobre tudo. Em cerca de 6 mil páginas de manuscritos que nos restam, há estudos de praticamente todas as áreas do saber : biologia, geometria, anatomia, geologia, botânica, astronomia, óptica, mecânica, arquitetura, projetos bélicos, etc. Há principalmente, a mais fantástica coleção de invenções e soluções de engenharia já imaginadas por um único homem : esboços de helicópteros, submarinos, pára-quedas, veículos, embarcações, máquinas voadoras, turbinas, teares, canhões, pontes, carros de combate, etc. Gastava muitas de suas noites dissecando cadáveres, em meio aos odores da morte e da decomposição. O quanto ele era habilidoso nessas técnicas o mostram seus desenhos anatômicos, considerados superiores aos do célebre Andreas Vesalius, o grande anatomista do Renascimento.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Simplesmente.....João Carlos Martins

Uma pequena homenagem ao grande João Carlos Martins pelos seus 67 anos, comemorados hoje.

O Pianista

A história do pianista João Carlos Martins certamente o eleva a um patamar raramente alcançado por outros músicos brasileiros no século XX. Em setembro de 1982, o exigente jornal “New York Times” se referia a ele como um dos maiores pianistas da atualidade. Já a revista “New York Magazine”, juntamente com o “Boston Globe”, ressaltavam o talento de João Carlos Martins, colocando-o como o mais excitante intérprete de Bach a surgir depois do legendário Glenn Gould.

Toda esta relação lírica tecida com o piano teve início aos 8 anos de idade, quando João Carlos Martins passou a estudar com o professor José Kliass. Após nove meses já se mostrava um virtuose, vencendo o concurso da Sociedade Bach de São Paulo. Ainda jovem, despertou a atenção de toda a crítica musical brasileira com suas performances únicas pela intensidade com que eram interpretadas. Aos 18 anos foi o único escolhido no Festival Casals, entre candidatos das três Américas, a dar o Recital Prêmio em Washington. A apresentação bem-sucedida teve como conseqüência sua estréia no “Carnegie Hall”, de Nova Yorque, patrocinada pela ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Eleonor Roosevelt.

A partir de então, passou a tocar com as maiores orquestras americanas. E sua gravação de O Cravo Bem Temperado, de Bach, aos 23 anos, foi best-seller durante muito tempo nos Estados Unidos.

Em 1983, João Carlos Martins inaugurou o Glenn Gould Memorial, em Toronto, Canadá. Sua carreira teve como um dos pontos altos o fato de ter gravado a obra completa de Bach para teclado.

A paixão de João Carlos Martins pela música originou o documentário franco-alemão “Martins Passion”, vencedor de 4 Festivais Internacionais, e já foi visto por mais de um milhão e meio de pessoas na Europa. Também já foi exibido em algumas oportunidades na TV aberta no Brasil, no caso a TV Cultura.
O grande mestre teve de interromper duas vezes a carreira de pianista por problemas físicos, o primeiro em decorrência de um acidente enquanto jogava uma partida de futebol em Nova York, já a segunda se deu em um assalto em Sofia na Bulgária. Por causa desses dois incidentes, ele teve que parar de tocar por algum tempo, mas sempre voltava a realizar a sua grande paixão. Finalmente em 2004 abandonou o piano devido ao agravamento de suas lesões nas mãos, tendo assim iniciado uma nova fase, agora como regente. Em maio de 2004 esteve em Londres regendo a English Chamber Orchestra, uma das maiores orquestras de câmara do mundo, numa gravação dos "Concertos de Brandenburgo" de Johann Sebastian Bach e, já em dezembro, realizou outra gravação de Bach, as "Suites para orquestra", com a Bachiana Chamber Orchestra, orquestra criada e dirigida por ele e que reúne alguns dos melhores músicos do Brasil.

Em 2006, além de sua agenda com a Bachiana no Brasil, João Carlos regeu na Argentina, França, Rússia, Bélgica e Estados Unidos.
Realiza também, na Faculdade de Música da FAAM, um programa de introdução à música com jovens carentes, além de outros trabalhos sociais envolvendo a música.


O Maestro

Ansiosamente, o público aguarda. A Orquestra entra, se curva, o Spalla se apresenta enquanto corações eufóricos esperam a entrada do Maestro. Sorrindo, João Carlos Martins caminha em direção a seu posto, ao som das palmas da platéia fiel. Se vira para sua Orquestra, fecha seus olhos num gesto de concentração, ao mesmo tempo que ergue as mãos sem a batuta e, como num transe, invoca a música que envolverá as pessoas que ali têm o privilégio de estar presentes. Neste concerto, igual a todos os outros que regeu, João Carlos Martins não pôde olhas as partituras, havia passado horas decorando aquelas notas.Antes de se tornar Maestro, João Carlos Martins lutava contra a frustração de ter parado sua principal atividade, o piano.

- “Eu estava sem rumo, em 2003, já sabendo que não poderia mais tocar nem com a mão esquerda. Sonhei então, que estava tocando piano, com o Eleazar de Carvalho, que me dizia: - vem para cá, que eu vou te ensinar a reger”, disse numa entrevista. Sabia, porém, que não seria uma mudança fácil, já que suas mãos jamais conseguiriam segurar uma batuta ou mesmo virar as páginas de uma partitura.

- “São milhões de notas e tudo isso eu sempre tive totalmente memorizado, enquanto era pianista. E, agora comecei minha vida na regência, então, estou começando tudo de novo, estou correndo atrás do prejuízo, já que nunca regi na vida”, conta em outra entrevista. Seu perfeccionismo como pianista transborda na sua vida de Maestro.

Todos os dias, caminha estudando partituras, sobe e desce os degraus de seu apartamento, no carro, na sala, em jantares, almoços, suas mãos estão sempre acompanhando o ritmo que insiste em percorrer sua mente. Seus dois primeiros CDs como Maestro, já lançados no Brasil e no mundo, mostram com nitidez a perfeição que João Carlos busca em todas suas obras.

Sempre marcado por Johann Sebastian Bach, João Carlos gravou em 2004 “The Brandenburg Concertos” em Londres na Igreja St. Jude, com a aclamada English Chamber Orchestra. O CD “Orchestral Suites” , seu disco com a Bachiana Chamber Orchestra, foi gravado no Colégio Humbold em São Paulo, em dezembro de 2004.

E no final de alguns concertos, quando sua mente e seus dedos entram em rara sintonia, ele anuncia que tentará tocar o piano por poucos minutos. Os quatro dedos que encostam no piano aguentam 4 longos minutos, nos quais o público aproveita para derrubar algumas lágrimas de emoção. É nítida a dor que João Carlos sente, física talvez, mas mais forte pelo carinho que sempre terá pelo instrumento que tanto respeitou...

Curiosidade:

Em fevereiroo de 2004 o crítico inglês descreve na International Piano Magazine um episódio pitoresco que aconteceu na vida de João Carlos Martins, quando após um recital no Carnegie Hall, no final dos anos 60, recebeu uma recomendação de Salvador Dalí: "Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita". O crítico termina dizendo que João Carlos Martins não teve que esperar tanto tempo.

domingo, 24 de junho de 2007

Teotihuacan - O Templo da Morte

Foto de Oswaldo Velasco (Teotihuacan - Abril de 2005)

Na Pirâmide da Lua, na região central do México, seres humanos e animais eram enterrados vivos. Escavações revelam os restos de sacrifícios testemunhados por milhares de pessoas no passado.

Até os cruéis astecas ficaram amedrontados ao chegar a Teotihuacan pela primeira vez. Quando esse povo conquistou o centro do México, por volta do século 13, a outrora vibrante cidade, que alcançara seu apogeu por volta do ano 400, já fora abandonada por seus construtores há muito tempo. O imponente espaço cerimonial, onde dezenas de milhares de pessoas se reuniam entre monumentos de pedra sagrados, jazia recoberto por uma densa camada de vegetação. Os astecas chamaram o lugar de Teotihuacan e deram nomes às construções mais grandiosas – a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua – segundo suas próprias crenças. Supondo que alguns dos edifícios fossem tumbas, chamaram a principal via da cidade de rua dos Mortos.

Eles estavam, como se confirmou, corretos. Sepulcros tenebrosos foram descobertos recentemente nas escavações feitas na Pirâmide da Lua, chefiadas por Rubén Cabrera Castro, do Instituto Nacional de Antropologia e História, do México, e por Saburo Sugiyama, da Universidade Aichi, no Japão. Ao escavar túneis dentro da estrutura de pedra de 43 metros de altura, os arqueólogos localizaram cinco sepulcros. Com ar fresco sendo bombeado para dentro, os arqueólogos rasparam as últimas camadas de terra do chão, revelando cenas de massacre: cabeças decepadas, restos mortais de guerreiros, mamíferos carnívoros, aves de rapina e répteis venenosos.

As evidências demonstram que todas as vítimas foram mortas em rituais de consagração às sucessivas etapas da construção da pirâmide (ilustração abaixo). O sacrifício mais antigo, datado por volta do ano 200, assinalou um aumento substancial do edifício. Um estrangeiro ferido, provavelmente prisioneiro de guerra, foi enterrado vivo, ao que tudo indica, com as mãos amarradas às costas (página oposta). Em volta dele, foram encontrados animais que representavam poderes míticos e força bélica: pumas, um lobo, águias, um falcão, uma coruja e cascavéis – alguns deles enterrados vivos dentro de gaiolas. Oferendas incluíam armas de obsidiana e uma estatueta de nefrita maciça, talvez de uma deusa da guerra a quem o sepulcro seria dedicado. Cada sepulcro era diferente, mas todos tinham o mesmo propósito: “Sacrifícios humanos eram importantes para controlar as pessoas”, diz Sugiyama, “e convencê-las a fazer o que os seus soberanos desejavam”.

Não, não foram alienígenas que projetaram Teotihuacan, e o lugar também não tem nada a ver com Atlândida. Desde que as primeiras fotografias aéreas de Teotihuacan foram feitas, na década de 1960, o traçado específico e preciso da cidade confunde cientistas e estudiosos. Toda a cidade é organizada de acordo com um sistema rígido que tem como base uma avenida central, a Rua dos Mortos. Essa rua principal, no entanto, não está orientada no eixo exato norte-sul, mas desvia-se dele por exatos 15,5º a leste do verdadeiro norte – curiosidade que deixa estudiosos perplexos e leva a toda uma variedade de suposições.

Uma das hipóteses mais divulgadas sugere que o sol poente fica a um ângulo de 90º em relação à Rua dos Mortos os dias de zênite (quando o sol passa diretamente acima). Alguns estudiosos, no entantam, refutam a hipótese ao afirmar que as contas não são exatas. No início da década de 1970, Anthony Aveni, astrônomo e arqueólogo da Universidade de Colgate (EUA), sugeriu que um ponto a 90º a oeste da Rua dos Mortos marcava a posição do poente das Plêiades, um aglomerado de estrelas ligado ao calendário mesoamericano, mais ou menos na época da fundação de Teotihuacan. No entanto, Vincent Malmstrom, professor emérito na Faculdade de Dartmouth (EUA), argumentou alguns anos mais tarde que um ponto a 90º oeste da Rua dos Mortos marca o ponto onde, duas vezes por ano (no dia 30 de abril e em 13 de agosto) o sol se põe em oposição direta à Pirâmide do Sol. Malmstrom acredita que isso seja importante porque a segunda data é a apontada pelos maias como a do início do mundo.

Não existe nenhuma explicação conclusiva para explicar por que os fundadores de Teotihuacan orientaram sua cidade de maneira tão específica. Cientistas e estudiosos sentem-se intrigados e continuarão, sem dúvida, a procurar pistas para desvendar este mistério – um entre tantos existentes em Teotihuacan.

NatGeoBrasil (Out.2006)




TEOTIHUACAN

Pocas ciudades han sido consideradas dignas de ser habitadas por los dioses, más habituados a las esferas celestes que a los dominios humanos. Teotihuacan es una de ellas, y para haber alcanzado el rango de ciudad mítica tuvieron que transcurrir mil años de civilización que hoy se respira entre sus amplias avenidas que marcan los rumbos del universo y cuyo esplendor emana de plazas y pirámides de proporciones ciclópeas penetrando los muros estucados de imágenes primigenias de la naturaleza y figuras de un mundo espiritual casi olvidado.
Urbe divina y humana, plena de calles y habitaciones, que vivió una actividad ferviente, a la cual entraban y salían hombres y mercancías hacia el valle de México, Puebla, Tlaxcala e incluso hasta la Mixteca y Tehuantepec. ¿Cómo pudo surgir tal prodigio de piedra en un valle que, comparado con el de México, aparece yermo, sujeto a las lluvias del temporal y con unos cuantos pozos de agua?

Estudios arqueológicos han mostrado que Teotihuacán era, 600 años a.C., una aldea que comenzó a elaborar objetos de piedra pedernal obtenida de la zona. El excedente de este producto permitió un incipiente intercambio con otras regiones y posteriormente establecer un eficiente comercio y agricultura planificada a partir del siglo II a.C. Desde entonces los conocimientos desarrollados por las culturas preclásicas fueron concentrándose en torno a un centro político y religioso que duraría hasta el siglo IX de nuestra era. El grado de refinamiento y difusión de la cultura teotihuacana ha sido calificado como la época Clásica en la América meridional.

La expresión más evidente del paso de las generaciones y pueblos que habitaron este sitio --a tan sólo 50 km al Noreste de la ciudad de México-- son los restos arqueológicos de la ciudad y las innumerables piezas de fina cerámica esparcidas por el mundo. El centro ceremonial, trazado como un gran símbolo de dos ejes; el Norte-Sur denominado Calzada de los Muertos del que parten, como alas de una mariposa edificios, palacios, plazas y adoratorios. A la cabeza la gran pirámide de la luna y a un costado la mole inmensa de la pirámide del Sol, dualidad creadora de la naturaleza y de los hombres que levantaron los muros de tezontle, cal y canto.

Siglos después de abandonada, otros pueblos llamaron al sitio “Ciudad de los Dioses”, no sin razón, pues su existencia estuvo regida por profundas convicciones religiosas y normas de vida en torno a los ciclos de la naturaleza, la siembra, la cosecha, la lluvia y una cosmogonía de estrechas relaciones fenomenológicas cuya expresión calendárica y astronómica se reflejó en la construcción de la ciudad.

En ello radica la importancia de las pirámides, que a diferencia de las egipcias son escalonadas y se dividen en cuerpos horizontales para servir de plataforma a un templo. Estos niveles son, además, elementos simbólicos de los supramundos a manera de una montaña metafísica. Su cuadratura es expresión de una naturaleza dominada, de lo armonioso e inmutable. Sin dejar de ser emulación de los cerros (morada del agua) las pirámides teotihuacanas hacen de su silueta un sello de taludes y tableros que se repiten a manera de cantos sagrados.

Al sentido vertical lo complementa su base cuadrangular y su posición precisa con respecto al trayecto de los astros. En efecto, la orientación de la Pirámide del Sol tiene una inclinación de 17º de la dirección del polo terrestre, lo que apunta hacia el polo magnético y permite al sol coincidir en el Cenit del centro de la pirámide los días 20 de mayo y 18 de junio. Son más las características astronómicas de esta y otras pirámides mesoamericanas, pero en el caso de Teotihuacán, el conjunto de templos y edificios rodeado por una urbe mimetizada de campo, crean un espacio magnífico que permite establecer vínculos olvidados entre el hombre y la naturaleza.

Así como el sol y el viento de los espacios abiertos impresionan y evocan el trabajo colectivo, en los edificios de orden civil, palacios, plazas y mercados nos adentramos a un mundo más rico y cercano. En especial los patios propician una sensación de serenidad, como en el caso del perteneciente al palacio de Quetzalpapálotl (ave-mariposa) con sus columnas labradas, cornisas policromadas y almenas.

Teotihuacán no sólo es una ciudad monumental, sino también un sitio donde la pintura de murales permite discurrir en el mundo de las figuras míticas, de dioses, jaguares, seres de la noche y cielos acuáticos. El arte teotihuacano no se detiene en lo exterior y crea su microcosmos de vasijas y objetos ceremoniales que, ensayados por siglos, alcanzaron la perfección. Es así que la ciudad contenía barrios especializados de artesanos que proveían a la ciudad y a zonas tan alejadas como Oaxaca y Yucatán. Asimismo, y como correspondía a una ciudad cosmopolita, la ciudad llegó a tener sus barrios de grupos mayas y zapotecas.

Esta presencia teotihuacana entre pueblos alejados también creó rivalidades que se acentuaron hacia el siglo VII. Para entonces la urbe que había crecido a costa de tierras de cultivo, importaba materia prima y agotaba los recursos naturales comenzó a entrar en crisis. Para el siglo IX otras ciudades de tradición teotihuacana rebasaban a la metrópoli: Tajín, Cholula y Xochicalco. En lo sucesivo Teotihuacán contó más el numero de muertos que la habitaban, pero su presencia se extendía a toda mesoamérica.

Los grupos que fueron llegando a la región y establecieron nuevas ciudades retomaron el modelo teotihuacano y elaboraron una compleja mitología en torno a su tradición religiosa. En especial destaca la figura de Ce-Acatl Topiltzin Quetzalcóatl en quien se reúnen la idea civilizadora y el culto agrícola; de igual manera la fuerza fecundadora y destructora del agua se complementa en el llamado dios Tláloc. En uno de los edificios correspondiente al grupo llamado Ciudadela es posible ver, traducido en piedra y estuco, las figuras labradas de estas dos deidades.

El efecto de contemplar una urbe semidesierta por los toltecas y más tarde en los mexicas sugirió la idea de los cataclismos, cuya expresión literaria es la leyenda del Quinto Sol que en suma es la recreación periódica del universo y cuyo último escenario fue precisamente la ciudad de los dioses. Cumplido el término de esa era, a la llegada de los europeos en el siglo XVI, los modelos de vida, patrones urbanísticos, ciclos de producción y vida social teotihuacana se reflejan aún en el espejo de los siglos.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A Cartomante


Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...

— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

— Onde é a casa?

— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar comprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verosímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...

— A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

— As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.


Este conto foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em 1884. Posteriormente foi incluído no livro "Várias Histórias" e em "Contos: Uma Antologia", Companhia das Letras - São Paulo, 1998, de onde foi extraído.
Uma singela homenagem a Machado de Assis que, no dia de hoje, estaria completando seu 168º aniversário.

No aniversário do bruxo do Cosme Velho

Foto de Marc Ferrez

Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Filho do operário Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo, pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência. Foi criado no morro do Livramento e ajudou missa na igreja da Lampadosa. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 1855, com 16 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, número datado de 12 de janeiro de 1855. No ano seguinte, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor. Em 1859, era revisor e colaborador no Correio Mercantil e, em 60, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente também para a revista O Espelho, onde estreou como crítico teatral, A Semana Ilustrada, de 16 de dezembro de 1860 até, pelo menos, 4 de julho de 1875, Jornal das Famílias, no qual publicou de preferência contos.

O primeiro volume de Machado de Assis foi impresso, em 1861, na tipografia de Paula Brito, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, mas o nome de Machado aparecia aí como tradutor. Em 1862, era censor teatral, cargo não remunerado, mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou também a colaborar em O Futuro, órgão dirigido por Faustino Xavier de Novais, irmão de sua futura esposa. Seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, saiu em 1864. Em 1867, foi nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. Em agosto de 69, morreu Faustino Xavier de Novais e, menos de três meses depois (12 de novembro de 1869), Machado de Assis se casou com a irmã do amigo, Carolina Augusta Xavier de Novais. Foi companheira perfeita durante 35 anos, tendo-lhe revelado os clássicos portugueses e vários autores de língua inglesa. O primeiro romance de Machado, Ressurreição, saiu em 1872. Pouco depois, o escritor foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, iniciando assim a carreira de burocrata que lhe seria até o fim o meio principal de sobrevivência. Em 1874, começou a publicar, em O Globo de então (jornal de Quintino Bocaiúva), em folhetins, o romance A mão e a luva. Intensificou a colaboração em jornais e revistas, como O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira (ainda na fase Midosi), escrevendo crônicas, contos, poesia, romances, que iam saindo em folhetins e depois eram publicados em livros. Uma de suas peças, Tu, só tu, puro amor, foi levada à cena no Imperial Teatro Dom Pedro II (junho de 1880), por ocasião das festas organizadas pelo Real Gabinete Português de Leitura para comemorar o tricentenário de Camões, e para essa celebração especialmente escrita. De 1881 a 1897, publicou na Gazeta de Notícias as suas melhores crônicas. Em 1881, o poeta Pedro Luís Pereira de Sousa assumiu o cargo de ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e convidou Machado de Assis para seu oficial de gabinete (ele já estivera no posto, antes, no gabinete de Manuel Buarque de Macedo). Nesse ano de 1881 saiu também o livro que daria uma nova direção à carreira literária de Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás Cubas, que ele publicara em folhetins na Revista Brasileira de 15 de março de 1879 a 15 de dezembro de 1880. Revelou-se também extraordinário contista em Papéis avulsos (1882) e nas várias coletâneas de contos que se seguiram. Em 1889, foi promovido a diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia.

Grande amigo de José Veríssimo, continuou colaborando na Revista Brasileira também na fase dirigida pelo escritor paraense. Do grupo de intelectuais que se reunia na Redação da Revista, e principalmente de Lúcio de Mendonça, partiu a idéia da criação da Academia Brasileira de Letras, projeto que Machado de Assis apoiou desde o início. Comparecia às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1879, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, à qual ele se devotou até o fim da vida.

A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários. Na poesia, inicia com o romantismo de Crisálidas (1864) e Falenas (1870), passando pelo Indianismo em Americanas (1875), e o parnasianismo em Ocidentais (1897-1880). Paralelamente, apareciam as coletâneas de Contos fluminenses (1870) e Histórias da meia-noite (1873); os romances Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico. A partir daí, Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas, que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa.

A obra de Machado de Assis foi, em vida do Autor, editada pela Livraria Garnier, desde 1869; em 1936, W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, publicou as Obras completas, em 31 volumes. Raimundo Magalhães Júnior organizou e publicou, pela Civilização Brasileira, os seguintes volumes de Machado de Assis: Contos e crônicas (1958); Contos esparsos (1966); Contos esquecidos (1966); Contos recolhidos (1966); Contos avulsos (1966); Contos sem data (1966); Crônicas de Lélio (1966); Diálogos e reflexões de um relojoeiro (1966). Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura e encabeçada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, organizou e publicou, também pela Civilização Brasileira, as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes, reunindo contos, romances e poesias desse escritor máximo da literatura brasileira.

BIBLIOGRAFIA:

Comédia
Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Poesia
Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.

Romance
Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.

Conto:
Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.

Teatro
Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Algumas obras póstumas
Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.

Antologias
Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998


Robô terráqueo procura formas de vida em Marte

O veículo explorador fará as perfurações mais profundas no subsolo marciano, a 2 metros da superfície. A essa profundidade, pode haver alguma vida protegida da radiação cósmica

Como será a missão que buscará formas (microscópicas) de vida enterradas em Marte

O pesquisador americano jeffrey Bada planeja se redimir de ter um dia acabado com a alegria dos entusiastas da vida em Marte. Um estudo coordenado por ele em 1998 mostrou que moléculas orgânicas presentes em um meteorito marciano, encontrado na Antártica em 1984, tinham ido parar na rocha após ela chegar à Terra. Hoje, à frente do Centro de Astrobiologia da Nasa, nos Estados Unidos, Bada comanda o desenvolvimento do mais potente dispositivo de busca de vida extraterrestre já construído. O equipamento será lançado rumo a Marte a bordo da missão ExoMars, programada pela Agência Espacial Européia para 2013. A missão tem como objetivo responder à pergunta que estimula a imaginação da humanidade desde que o astrônomo americano Percival Lowell garantiu ter avistado, no fim do século XIX, uma rede de canais em Marte que seria obra de uma civilização.

A missão ExoMars esquadrinhará Marte em busca de vizinhos como nunca nenhuma missão espacial fez. Ninguém espera encontrar homenzinhos verdes lá, mas pode haver organismos microscópicos. O objetivo é despachar para o planeta um veículo explorador com um laboratório de análises químicas, o Urey. Ele foi concebido para procurar moléculas que indicam a presença de vida, os aminoácidos. Esses compostos de carbono formam as proteínas, que constroem os tecidos dos seres vivos na Terra. “A capacidade do Urey para detectar moléculas orgânicas será 1 milhão de vezes maior que a dos equipamentos já enviados a Marte”, diz Bada.

Além de identificar os aminoácidos, o aparelho também pode analisá-los para verificar se estão associados a alguma forma de vida. “Já foram encontrados aminoácidos em meteoros, mas isso não comprova que há vida fora da Terra”, diz Eduardo Gorab, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Eles podem ter sido produzidos por reações químicas ao acaso entre gases encontrados no espaço.”

Para tirar essa dúvida, o Urey usará uma técnica que explora as propriedades físicas dos aminoácidos. Quando pesquisadores, em laboratório, submetem um grupo de aminoácidos que compõe os seres vivos a um feixe de luz, todas as moléculas desviam o raio luminoso para a esquerda. Se o grupo de aminoácidos tiver sido gerado por reações químicas, no entanto, cerca de 50% das moléculas desviarão a luz para a direita e 50% para a esquerda, numa distribuição ao acaso. Os equipamentos do Urey farão essa análise em solo marciano. “Se um grupo de aminoácidos desviar toda a luz para a direita, isso significará a descoberta de um tipo completamente único de vida”, diz Bada. Se os aminoácidos desviarem a luz para a esquerda, como na Terra, pode significar que a vida em Marte tem alguma relação com a terráquea. Ou que ela se desenvolveu, por coincidência, de forma parecida com a nossa.

A ExoMars procurará por esses sinais de vida em uma fronteira inexplorada por missões espaciais: o subsolo marciano. O veículo que leva o Urey terá uma broca para perfurar o solo e retirar amostras a até 2 metros de profundidade. E é justamente no subterrâneo de Marte que os pesquisadores esperam encontrar algum tipo de vida. Afinal, a superfície marciana não é o melhor lugar para um ser vivo se desenvolver. Ela é constantemente atingida por radiação ultravioleta em níveis letais para a vida. A temperatura média é de 60 graus negativos e não há sinais de água em estado líquido. Já o subsolo marciano parece reunir condições mais amigáveis: temperaturas amenas, proteção contra os raios ultravioleta e, quem sabe, água líquida.

Imagens tiradas com sete anos de intervalo pela sonda Mars Global Surveyor mostram o aparecimento de rastros de água na superfície do planeta. “Esse ‘vazamento’ sugere que em alguma profundidade do subsolo de Marte há água líquida”, diz o astrobiólogo David Grinspoon. “Essas descobertas recentes reforçam a possibilidade de haver vida em Marte ou de pelo menos encontrarmos sinais de algum tipo de vida extinta.” Os pesquisadores não descartam a hipótese de que o planeta já tenha abrigado vida. Marte parece ter sido um lugar bem mais agradável há 4 bilhões de anos. Então, o impacto de um bombardeio de meteoros teria jogado para o espaço os gases que formavam a atmosfera marciana, hoje muito fina. Com isso, o planeta ficou frio e a água líquida que um dia existiu teria congelado.

Apesar da sofisticação da busca que será feita pela ExoMars, é possível que os equipamentos não enxerguem um tipo de vida que não tenha por base compostos de carbono – a única forma de vida que conhecemos. “Se for diferente, não se sabe se conseguiremos detectá-la”, diz o astrônomo Roberto Costa, da Universidade de São Paulo. Essa possibilidade desperta outro tipo de questão entre os astrônomos: o que é a vida, afinal? Por enquanto, a melhor estratégia para descobrir é continuar investigando outros planetas.

A dificuldade de buscar vida extraterrestre é reconhecer sinais dela. Ninguém espera encontrar homenzinhos verdes em Marte, e sim formas mais simples. Pode ser algo como bactérias.

O robô explorador estará equipado com o Urey, um dispositivo que procurará moléculas associadas à vida na Terra, os aminoácidos. O Urey pode indicar se as moléculas encontradas têm ligação com algum ser vivo ou se foram formadas apenas por reações químicas ao acaso.
Marcela Buscato
Época, http://revistaepoca.globo.com/ nº 474 (18-06-2007)

Descoberta a primeira vítima de arma de fogo no Novo Mundo

Esta pode ser a primeira vítima confirmada da conquista espanhola.
A equipe chefiada pelo arqueólogo peruano Guillermo Cock, bolsista da National Geographic, descobriu o esqueleto da primeira vítima de arma de fogo registrada no Novo Mundo em um cemitério inca nos arredores de Lima, no Peru. Acredita-se que o corpo seja a primeira vítima da conquista espanhola comprovada por análise forense, uma entre prováveis 72 vítimas de um levante contra os conquistadores. Cock, que trabalhou mais de 20 anos para desvendar os mistérios desses cemitérios índios, cavou uma trincheira de teste em uma encosta de colina no subúrbio de Puruchuco a pedida da prefeitura de Lima, que planejava fazer uma rua ali. Na trincheira de 6 X 24 metros, Cock e sua colega arqueóloga Elena Goycochea rapidamente depararam com um conjunto de túmulos e concluíram que o local tinha sido um cemitério.

Desde o início das escavações, em 2004, a equipe desenterrou cerca de 500 esqueletos que remontam a cerca de 500 anos, até a civilização inca. Conhecidos como os romanos do Novo Mundo, os incas conquistaram toda a região andina até que seu reinado terminou em 1532 com a invasão espanhola.

Cock descobriu que 72 dos corpos da encosta tinham sido enterrados sem a tradicional reverência à morte dos incas, que compreende por exemplo o uso de tecidos para enrolar o corpo em posição fetal, de frente para o leste. "Estes corpos tinham sido enterrados de uma maneira estranha", disse Cock. "Não estavam virados para a posição certa, foram amarrados com pressa em tecido simples, não tinham oferendas e estavam enterrados a pouca profundidade. Alguns dos corpos também apresentavam sinais de violência terrível. Tinham sido atingidos com instrumentos pontudos, dilacerados, empalados - ferimentos que pareciam ter sido causados por armas de ferro - e vários tinham ferimentos no rosto e na cabeça que pareciam ter sido causados por armas de fogo."

Um dos crânios apresentava ferimento de entrada e de saída e, perto dele, foi encontrado um tampão de osso que pode ter sido deslocado da cabeça. No início, Cock achou que os buracos no crânio fossem modernos - resultantes de tiros desferidos por vândalos. Mas o tampão de osso, recuperado intacto, refletia impacto com força bem menor do que a de qualquer arma de fogo moderna e trazia uma marca côncava que claramente sugeria o uso de bala de mosquete.

Com base em indícios encontrados no local da escavação, Cock convenceu-se de que tinha encontrado uma vítima de arma de fogo da época dos incas. O antropólogo físico John Verano, da Universidade de Tulane, concordou depois de realizar observações em campo; Melissa Murphy, da Faculdade Bryn Mawr, bioarqueóloga e integrante da equipe, sugeriu que buscassem indícios definitivos.

Para determinar de maneira conclusiva se o ferimento foi ou não causado por arma de fogo, Cock e sua equipe decidiram usar tecnologia para examinar o crânio em busca de vestígios de metal na beirada do ferimento. Cock, Goycochea e Murphy levaram o crânio e outros ossos para o renomado centro de ressonância magnética Resomasa, em Lima. Não apareceu nenhum resquício de metal.

Sem desanimar, Cock recorreu ao cientista forense Tim Palmbach, na Universidade de New Haven (EUA), que convocou o Instituto de Ciência Forense do Connecticut Henry C. Lee, da universidade, que conta com uma das instalações mais avançadas do setor. "Tentamos eliminar todos os tipos de causas que pudessem ter provocado o buraco - uma pedra de estilingue, lança, marreta", disse Al Harper, diretor-executivo do instituto. "Queríamos saber o que poderia ter causado aquele padrão de ferimento."

Harper e Palmbach então resolveram examinar o crânio com um microscópio de varredura muito potente. "Todos achamos que teríamos uma chance em um milhão de encontrar algum resíduo de metal em um crânio tão antigo quanto aquele, mas valia a pena tentar", disse Harper.
Mas encontraram. As beiradas dos buracos no crânio e todo o tampão de osso estavam impregnados de fragmentos de ferro, metal às vezes usados na confecção de balas de mosquete espanhol. Parece que uma bala de mosquete com menos de 2,5 centímetros de diâmetro entrou pela parte de trás do crânio e atravessou a cabeça, deixando fragmentos de ferro incrustados no osso, que lá permaneceram durante 500 anos.

"Isto comprova, de maneira conclusiva, que a pessoa foi morta por uma arma de fogo, e que ele é a primeira vítima de tiro a ser identificada na Américas", afirmou Cock. Desde a descoberta da primeira vítima de arma de fogo, parece que duas outras foram identificadas.

Acredita-se que os ferimentos no crânio e nos dois outros corpos tenham sido causados por armas consistentes com as usadas pelos soldados espanhóis da época. As armas usadas para nesses casos foram algumas das primeiras armas de fogo do mundo - a tecnologia militar mais avançada do século 16, de acordo com o historiador militar John Guilmartin, da Academia Militar de West Point (EUA). "Os espanhóis sabiam usá-las", disse.

Cock e sua equipe acreditam que as mortes tenham ocorrido no verão de 1536, durante um levante inca contra os conquistadores espanhóis liderados por Francisco Pizarro, conhecido como o cerco de Lima. Entre os 72 corpos enterrados de maneira apressada, havia várias mulheres e adolescentes. Cock disse que estes não seriam soldados, mas sim ajudantes dos guerreiros, que cozinhavam, carregavam os suprimentos e cuidavam dos feridos.

O mais provável é que os corpos tenham sido enterrados de maneira apressada porque os incas, no meio do levante, não tinham tempo nem recursos para enterrar os mortos da maneira apropriada e tradicional. As covas rasas e os corpos dispostos de maneira caótica, mal acondicionados e sem oferendas, são testemunho do fato de que os incas estavam atarantados demais para terem condições de fazer rituais adequados para o enterro das vítimas.

O cemitério fica a pouco menos de um quilômetro de milhares de múmias incas descobertas em Puruchuco por Cock a partir de 1999. Essa descoberta foi anunciada em abril de 2002 e na reportagem de capa de maio de 2002 da revista National Geographic. Os arqueólogos descobriram o total de quase 1,8 mil múmias enroladas em tecidos e dezenas de milhares de artefatos em Puruchuco.

As escavações em Puruchuco foram financiadas pela National Geographic Society e pela prefeitura de Lima, com licença fornecida pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru. A pesquisa de Murphy é financiada pela National Science Foundation.

As novas descobertas em Puruchuco serão apresentadas em "The Great Inca Rebellion" [a grande rebelião inca], um novo especial da NOVA/National Geographic, que estréia na terça-feira, 26 de junho de 2007, no canal público PBS, dos EUA.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Van Gogh, o apóstolo das cores

"Terraço do Café em Arles à Noite", 1888

No verão do ano de 1905, Jo Van Gogh-Bonger, a viúva de Théo Van Gogh, finalmente conseguiu organizar a primeira exposição das obras do seu cunhado Vicent Van Gogh. O pintor que havia se suicidado quinze anos antes, em Anvers, na França, no ano de 1890, nunca conseguira vender uma só tela durante a sua vida de artista. A mostra dos 234 telas e 239 gravuras e desenhos, apresentados no Museu Stedelijk de Amsterdam, foi a primeira que abriu caminho para o reconhecimento e consagração universal do grande gênio da pintura contemporânea.

"Minha mais íntima prioridade, a primeira , é que o espírito do meu avô renasça em mim e que me faça ser um cristão, um servidor de Cristo." Vicent Van Gogh, 1879-80

Vida nômade e infeliz

Não se sabe ao certo quando Théo Van Gogh percebeu que por detrás das doidices e bizarrias do seu irmão Vicent, quatro anos mais velho do que ele, ocultava-se um gênio das artes. Talvez quando começaram suas intensas correspondências, ao redor de 1872. Filhos de um pastor da igreja holandesa reformada, nascidos nos grotões da Holanda, em Groote-Zundert, no Brabante, um no ano de 1853 o outro em 1857, praticamente eram irmãos siameses: a dor de um era o sofrimento do outro. Vicent tentara de tudo na vida: de atendente de livraria a pregador evangélico. Um fracasso completo. Depois de um dos tantos desencantos amorosos que sofreu, teve um crise mística que o fez deixar Londres e embrenhar-se em Borinage, na zona carbonífera belga para ir levar a palavra divina aos mineiros.

Lá imaginou-se Jesus, dormindo sobre palhas e mastigando pão duro, levando uma existência sofrida o mais próximo possível de uma expiação. Seus superiores acharam que aquilo era demais e o dissuadiram da carreira ministerial. Nesta ocasião ele fez o esboço dos “Comedores de batata” (depois célebre retrato que se firmará como uma espécie de Santa Ceia dos trabalhadores). Sim, porque em todas ocasiões, como se fosse um possuído, ele não parava de desenhar.

Théo, por sua vez, empregado na Galeria Goupil em Paris, desde 1880 passou a sustentá-lo. Ao redor dos trinta anos a aparência de Vicent era medonha. Seus cabelos vermelhos curtos, seus dentes estragados e suas roupas de mendigo compunham um visual de dar medo, assustador. A isso somava-se o seu temperamento esquisito. Van Gogh era um ouriço. Irritava-se com tudo e com todos, sofrendo surtos pavorosos de demência (supõe-se que resultante da sífilis e do alcoolismo), o que o condenou à solidão, a expressar-se cada vez mais pelas gravuras.

O movimento impressionista

Entrementes, nos campos da França assistia-se a uma revolução. Não pelas armas mas pelas paletas e tintas. Chamados jocosamente de “impressionistas”, uma nova geração de artistas, rompidos com a arte acadêmica, tomaram as aldeias e vilarejos de assalto. Pintavam o que viam. As plantações, as flores e árvores, as nuvens, as pontes, as choupanas do povo miúdo, os camponeses empilhando o feno ou arando a terra, etc... As cores, fortes ou fracas, eram dadas diretamente pela intensidade do sol ou pela ausência dele. Vivam na necessidade, alguns beiravam a miséria.

Não demorou para que Van Gogh, abandonando em 1887 o apartamento do irmão na rua Lépic, nº 54, em Montmarte, Paris, se juntasse a esses apóstolos da cores indo para Arles no sul da França, região onde o sol era intenso. Arrastou consigo a Paul Gauguin que antes havia se fixado em Port-Aven, na Bretanha, liderando uma tribo de uns 20 artistas impressionistas. Foi então que deu-se a explosão da sua paixão pelo amarelo, cor do ouro, do trigo, a cor de Apolo.

Um artista missionário

Théo, entrementes, com pouco sucesso, fazia de tudo para vender as telas daqueles pobres loucos. Vicent transformara a pintura numa missão. Nada mais cristão para ele do que retratar os humildes e os simples em suas funções e a natureza fulgurante, viva e móvel que os cercava. Agiu como se investido como um profeta-pintor produzisse um Sermão da Montanha com pincel e tintas (praticamente inexiste nas telas de Van Gogh uma figura "ilustre" ou de um burguês endinheirado).

Anos depois do suicídio dele, ocorrido em Auvers-sur-Oise, em 29 de julho de 1890, quando pôs fim a sua via dolorosa com um tiro de pistola disparado contra a sua barriga, seu sobrinho registrou que sua mãe, Jo Van Gogh-Bonger, a viúva de Théo (que morreu seis meses depois do irmão), que alugara uma casa em Bussum, no interior da Holanda, tinha as paredes dela repletas com as obras-primas de Vicent. Hoje, somente quatro delas estariam avaliadas entre U$ 250 a 300 milhões de dólares!

A esta brava mulher é que se deve a primeira exposição de 473 obras de Van Gogh no Museu Municipal de Amsterdam, realizada em julho-agosto de 1905. Duas mil pessoas acorreram para vê-las. Ainda riram das telas dele. O que não evitou que o seu nome começasse a ser pronunciado de boca em boca como um fenômeno das artes holandesas, um dos gênios do mundo de hoje.

Portal Terra

http://www.vggallery.com/international/portuguese/letters/main.htm http://www.vggallery.com/international/portuguese/index.html

 
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