segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Acredite, vivemos no melhor dos mundos

“Nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe para onde ir”, disse o filósofo Sêneca. A desorientação que marca nossa vida pós-industrial também deriva de nossa incapacidade de traçar as coordenadas de nosso presente e definir com lucidez os portos de nosso futuro. O que acontece então é que as relações sociais e a tenacidade de atingir objetivos se atenuam. Nós nos tornamos apáticos e nosso estilo de vida se torna banal.

É claro que nem todos reagem do mesmo modo: os de personalidade forte transformam sua desorientação em busca criativa. Mas os de personalidade fraca perdem a confiança em si mesmos e nos outros. É essa a encruzilhada que nos aguarda. Creio que foi o escritor argentino Jorge Luis Borges quem disse: “Quando chegar a uma encruzilhada, entre nela”. Mas como seguir por um caminho que ainda não foi traçado? Em que balizas podemos confiar para reduzir nossa desorientação?

Apesar disso tudo, ainda podemos nos apoiar em algumas certezas tranqüilizantes: a cada ano, conforme lembrei num artigo anterior, o Produto Interno Bruto do planeta cresce, em média, 3%. Nunca antes a vida humana teve duração tão longa. Nunca pudemos produzir tantos bens e tantos serviços com tão pouco esforço físico. Nunca as minorias foram tão respeitadas. Nunca tantos cidadãos estiveram inseridos na gestão da coisa pública. Nunca tivemos, como hoje, a capacidade de debelar a dor física. Ante um sistema social cada vez mais complexo, dispomos de informatização e tecnologia cada vez mais aptas a dominar essa complexidade.

Além dessas confortantes certezas, a orientação poderia vir da promoção da sabedoria e da alegria da beleza: duas coordenadas que o mundo clássico – de Sócrates a Sêneca – cultivou com toda a sua prodigiosa criatividade e que ainda hoje permitem traçar um bom itinerário a quem se aventura na pós-modernidade.

Essas duas coordenadas possibilitam que coloquemos cada coisa em seu justo lugar na escala de valores, sem nos deixar atropelar pela manipulação da mídia em geral, que nos induz a supervalorizar o fútil e ignorar o essencial. Elas nos permitem controlar a infindável necessidade de riqueza e poder, para trazer nossa atenção para necessidades fundamentais de introspecção, amizade, amor, divertimento e convivência.

No final, a promoção da sabedoria e a alegria da beleza conseguem revelar, por trás de cada razão para o medo, também uma ocasião para a esperança. A explosão demográfica pode ser desfeita por um atento controle de nascimentos. As ondas migratórias podem compensar nosso declínio demográfico com novas forças de trabalho e novas importações culturais. A tecnologia moderna, que provoca desocupação quando acolhida sem critérios, pode assegurar o bem-estar e o tempo livre pode ser introduzido com discernimento. Os movimentos ambientalistas podem manter viva a consciência ecológica. Os novos instrumentos disponíveis para garantir a transparência podem construir uma muralha contra a violência e a corrupção.

Para ativarmos a força benéfica das mudanças e para conquistarmos nossa bússola orientadora, será preciso que nos armemos de uma utopia positiva, feita de fantasia e realidade, de emoções e de regras. É preciso convencer-se de que o nosso não é o melhor dos mundos possíveis, mas que nos resta o melhor dos mundos que já existiu.

Domenico de Masi
Sociólogo da Universidade La Sapienza, em Roma
Época, Ed. 493 - 29/10/2007

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